Publicado 06 de Outubro de 2020 - 5h30

Mesmo em noites de melodramas mais tristonhas e chorosas do circo-teatro, como a do clássico ...E o Céu Uniu Dois Corações, o picadeiro não se vestia de tamanho luto. Não é para menos: na tarde desta sexta-feira, a cena circense de Campinas entristeceu-se em lágrimas com a morte do multiartista e empresário circense Walter de Almeida, proprietário do tão conhecido Circo Teatro Irmãos Almeida. Aos 94 anos, Walter de Almeida, vítima de insuficiência respiratória, deixa a esposa Paulina, com quem foi casado por 74 anos, quatro filhos, 12 netos e seis bisnetos.

Herdeiro de uma família de artistas mambembes da China, Walter nasceu sob a lona circense em 1925, quando a trupe estava em temporada no distrito de Marcondésia, no Interior de São Paulo. A estreia no picadeiro foi aos três meses de idade em um drama circense. No picadeiro, acumulou as funções de trapezista, cantor, encenador, adaptador, empresário, e, claro, ator principal das peças de circo-teatro. Walter também levou a sua voz inconfundível aos ouvintes da Rádio Educadora. Por 10 anos, apresentou o programa A Hora do Circo. Em 1975, em Campinas, resolveu abaixar de vez a lona do Circo Teatro Irmãos Almeida.

“Walter de Almeida, bem como o Circo Irmãos Almeida, tem uma significativa contribuição para as artes cênicas do Interior de São Paulo, especialmente a de Campinas. Por meio da lona da família, os campineiros puderam assistir a espetáculos belíssimos do repertório do circo-teatro, como Mestiça, Quo Vadis, Marcelino Pão e Vinho e ... E O Céu Uniu dois Corações, além de conhecer figuras emblemáticas de nossa cultura, como Luiz Gonzaga, Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, Vicente Celestino, Os Trapalhões e Mazzaropi”, destaca Tiago Gonçalves, jornalista cultural e pesquisador de circo-teatro.

Quem dividiu a cena com Walter de Almeida não esquece jamais. É o caso da circense Iracema Cavalcante, integrante do Circo Guaraciaba. “Aos poucos, vamos perdendo essas grandes figuras do nosso picadeiro. Walter de Almeida é uma delas: um grande amigo, um homem generoso, além de galã das peças. Mesmo tendo uma estatura baixa, que fugia do típico galã da época, ele interpretava magistralmente esse tipo. Isso sem falar que Walter cantava muito bem. As meninas ficavam impressionadas com a sua beleza e com a sua voz”, recorda-se Iracema.

As donzelas suspiravam, relembrava Walter entre gargalhadas. Das peripécias que protagonizou no circo, a maior e melhor delas, como gostava de brincar, foi encontrar o seu grande amor, Paulina de Almeida. “Eles sempre repetiam essa história para mim. Que tudo aconteceu numa noite de chuva. Paulina tinha ido pela primeira vez a um circo. Quando chegou à lona, descobriu que, por conta da tormenta, o espetáculo tinha sido cancelado. Perdeu a encenação, mas ganhou o coração do galã da trupe. Não se separaram nunca mais. Até mesmo no picadeiro viviam os casais apaixonados das peças”, conta o pesquisador.

Em homenagem a esse grande homem do circo-teatro brasileiro, esta reportagem encerra-se com a letra da canção interpretada pelos artistas do Circo Irmãos Almeida ao final de cada espetáculo: “Ó, ó meu povo amigo! Ó, boa noite! Até amanhã! Que sonhes comigo, é meu desejo, é meu afã!”. Aplausos e silêncio. (AAN)