Publicado 05 de Outubro de 2020 - 19h05

Vida de repórter, da escrita ou da fotografia, é sempre plena de surpresas. Isso, naturalmente, quando se está em atividade é comuníssimo. Todavia, mesmo depois que aposentamos o inesperado costuma acontecer.

Vejam que o lendário repórter-fotográfico Neldo Cantanti, aposentadíssimo após trabalhar durante largos anos no extinto matutino campineiro Diário do Povo, estava, faz uns dias, bebericando um vinho da Toscana em seu cinematográfico apartamento, quando toca o telefone. Quem ligava era uma colega do G1, da Rede Globo. O veterano homem de imprensa, logo, murmurou um “em que posso servi-la, meu bem?”

Assim foi que se armou o momento para a surpresa, pois a moça disse querer fazer uma entrevista com ele.

- Comigo? – Neldo soprou – A que devo tal honra?

- É que – ela seguiu – você é o único jornalista ainda vivo que cobriu, já lá se vão quase 60 anos, o famoso acidente com o jato Comet, fabricado na Inglaterra e que pertencia à Aerolineas Argentinas. A tragédia ocorreu logo após a decolagem do Aeroporto de Viracopos, aí em Campinas, com destino a Londres. A Globo está fazendo matéria especial sobre o evento.

Bom, dias depois a entrevista realmente ocorreu, levando o famoso ás da fotografia jornalística a retornar a certa manhã dos anos 60. O relógio marcava pouco mais de 7 horas quando, ainda meio sonolento com os vinhos que tomara na véspera com o também lendário redator Zaiman de Brito Franco, ele chegou à redação do Diário. O redator-chefe, Santos Júnior, logo bradou:

- Que lerdeza é essa? Então você não está sabendo?

- Sabendo o que, chefe?

- Que um jato com dezenas de passageiros acaba de se arrebentar em Viracopos?

Assim foi que, esquecida a ressaca, pouco depois Neldo entrava no aeroporto, com instalações ainda precárias, à época. E teve sorte porque encontrou, na área de embarque e desembarque, com o colega Benedito de Oliveira Barbosa, o Bob, que trabalhava na sucursal campineira do jornal Última Hora. Perguntou o que ocorria, foi informado e ouviu o conselho:

- E trate de correr logo para o local do acidente, pois ninguém fotografou ainda os destroços. E fotografia, nesse caso, vale realmente mais do que mil palavras.

Neldo, com a agilidade e conhecimentos que tinha, logo entrou num jipe a caminho do palco da tragédia, nas proximidades do bairro Helvetia. Ao lá chegar, a primeira visão dos destroços calcinados com dezenas de corpos na mesma situação, fez o experiente fotógrafo estremecer. Mas a recuperação veio rápida e, em coisa de segundos, clicava, com sua Rolleyflex alimentada com filmes de doze chapas, o cenário medonho. Em questão de minutos fez nada menos de 100 imagens; que pouco mais tarde, através de radiofotos, chegavam às redações do mundo inteiro.

Agora, com o lendário colega já aposentado, como eu, foi diante de dois mokas, no Café Regina, que ele me recordou esses acontecimentos com a mesma riqueza de detalhes que forneceu ao G1 da Globo. E eu mesmo observei que histórias de jornalistas envolvidos em situações que tiveram aviões no conteúdo, são muitas. E pude também retornar, só que aos anos 70, quando fui designado pela Folha de S.Paulo, em virtude de conhecer bem a região, a ir à cidade de Marabá, no sul do Pará, para contar algo sobre as primeiras derrubadas das gigantescas árvores de mogno que então começavam a ocorrer.

O detalhe foi que o repórter-fotográfico designado para ir comigo, o igualmente lendário Gil Passarelli, já falecido e Prêmio Esso de Fotografia de 1968, tinha verdadeiro pavor de viajar de avião. A ida, no jato, foi mais ou menos tranquila; todavia, chegando ao local da matéria, nós precisávamos atingir a área das derrubadas num monomotor Cessna caindo aos pedaços, porém único meio disponível. Passarelli me olhou e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, apontei para a porta de um armazém e disse que lá vendiam uísque Cavalo Branco. Graças ao precioso líquido das Terras Altas da Escócia chegamos ao destino sem medo. Mas, na volta, na hora da decolagem, o único motor do aviãozinho começou, na hora da partida, a soltar fumaça preta. O piloto pediu que descêssemos, abriu o capô, olhou, e se dirigiu a uma moça que, sob rústica palhoça, olhava nossos movimentos; solicitou que ela emprestasse um dos grampos que prendiam seus cabelos. Com ele, o comandante cutucou escaninhos da máquina e, em instantes, sem fumaça, o motor pegou e voltamos, após acabar de secar o uísque. Quando foi seis meses depois, nas “happy hours” do fim das tardes no Bar 308, que ficava atrás do prédio da Folha, Passarelli de repente enfiou a mão no bolso e me mostrou algo que guardava na carteira, perguntando se eu sabia o que era. Vendo, respondi:

- Ora, Gil, isso é um grampo de cabelo de mulher.

Depois de dar um gole no drinque, ele retornou:

- Exatamente. É aquele que salvou nossas vidas na manhã daquele vôo, lá nos confins de Marabá.

O esplêndido repórter-fotográfico, meu amigo, guardou a coisa como amuleto. Até morrer.