Publicado 07 de Outubro de 2020 - 10h37

Por Agência Anhanguera de Notícias

Mauro Senise resgata a obra do grande compositor no álbum <CF463>Ilusão à toa</CF> (destaque)

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Mauro Senise resgata a obra do grande compositor no álbum Ilusão à toa (destaque)

Mauro Senise é conhecido por fazer releituras instrumentais de grandes nomes da MPB. Nessa linha de trabalho, ele está lançando, pela gravadora Biscoito Fino, o álbum Ilusão à Toa – Mauro Senise toca Johnny Alf, um tributo mais que merecido ao instrumentista, cantor e compositor considerado por muitos como “pai da bossa nova”. “Quem acompanha a minha carreira sabe que gravei CDs fazendo uma releitura instrumental da música de grandes compositores brasileiros. Foi assim com a obra de Edu Lobo, Sueli Costa, Dolores Duran, Noel Rosa e Gilberto Gil. Não podia deixar de fora o grande Johnny Alf, compositor, pianista e cantor que me encanta.

Johnny foi precursor da bossa nova e merece todas as homenagens que forem feitas a ele”, afirma Senise. O disco estará disponível nas plataformas digitais a partir de 16 de outubro, e em breve sai também no formato físico, à venda em www.biscoitofino.com.br.

“A bossa nova era formada por uma turma bacana de rapazes superliberais da classe média – até mulher entrava: Nara, Silvinha, Leny, Odete, Claudete – mas um mulato homossexual filho de empregada como Johnny Alf tinha tudo para se sentir, de certa forma, um penetra entrando sorrateiramente pela porta dos fundos do celebrado clube. Isso, porém. simplesmente não aconteceu. Johnny era um músico tão genial (Tom Jobim o chamava de Genialf) que comandava o respeito de todos aqueles iniciantes que no final dos anos 1950 iriam revolucionar a MPB. Pianista, cantor e compositor de temas criativos e inovadores, ele foi, praticamente sozinho, o precursor daquele movimento coletivo que teria seu marco inicial na gravação de Chega de Saudade, em 1958”, escreveu Roberto Miggiati, sobre o artista homenageado.

Ruy Castro, nosso Homero da odisseia da bossa em busca de sua Ítaca-em-Ipanema, afirma categoricamente que Johnny Alf foi o "verdadeiro pai da bossa nova".

O pai de Johnny, um cabo do exército, morreu em combate durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Alfredo José da Silva tinha três anos e sua mãe era empregada doméstica numa casa da Tijuca. A patroa gostava do menino, apreciou seus pendores musicais no piano da casa e contratou uma professora para ele. Em 1952, aos 23 anos, ele começou a carreira profissional tocando piano na Cantina do César (de Alencar, o radialista) por indicação de Dick Farney. Em 1952 lançou seu primeiro disco, um 78 rotações, com sua música Falsete e o tema de Luiz Bonfá De cigarro em cigarro.

Alf reinou supremo no Rio até 1955 quando iniciou seu exílio paulistano, que duraria sete anos, até sua volta para o Rio em 1962. Foi para Johnny Alf que Vinícius de Moraes disse a frase famosa, numa boate paulistana em que grã-finos ruidosos o impediam de tocar: “Meu irmãozinho, pegue a sua malinha e se mande para o Rio de Janeiro, porque São Paulo é o túmulo do samba.” Depois de sua fase áurea, que ainda ocuparia parte dos anos 1960, Alf seguiu uma carreira de altos e baixos, menos por culpa dele – foram os tempos do rolo compressor do rock pauleira, funk, pagode, axê, sertanejo universitário. E em seus últimos anos apresentou-se pouco, por conta dos problemas de saúde. Sem família, morreu em 2010, aos 80 anos, num asilo de Santo André, em São Paulo. Mas sua memória – bem documentada em discos, filmes e vídeos – permanece viva junto àqueles que, como Mauro Senise, valorizam, em suas palavras, “a boa música brasileira.”

“Com persistência taurina (70 anos em 18 de maio) Mauro Senise construiu uma obra respeitável com dezenas de discos nas últimas quatro décadas, e vem se tornando uma espécie de IPHAN da MPB, com os álbuns dedicados a Noel Rosa, Edu Lobo, Sueli Costa, Dolores Duran, Gilberto Gil e, agora, Johnny Alf”, frisou Miggiati sobre o trabalho.

Mauro escolheu doze joias, todas compostas por Johnny Alf (excetuando as parcerias com Maurício Einhorn em Disa e Ronaldo Bastos em Olhos negros).

Escolheu também a dedo um elenco estelar para concretizar este difícil projeto em que – apesar do país e da hora adversa que vivemos – deu tudo certo. Um trio básico – Adriano Souza (piano), Bruno Aguilar (baixo) e Ricardo Costa (bateria) – atua em Seu Chopin, desculpe, Olhos Negros (arranjos de Adriano), Rapaz de bem e Céu e Mar (arranjos de Roberto Araújo). Em O que é amar, Bruno e Ricardo acompanham Cristóvão Bastos, piano e arranjo. Outro time entra em campo em Disa, Ilusão à toa e Podem falar: Jota Moraes (piano, vibrafone e arranjo), Jefferson Lescowich (baixo), Danilo Amuedo (bateria), Jaime Alem (violão), os percussionistas Fábio Luna e Mingo Araújo tirando de sua cartola de mágico truques geniais (ou genialfs). Irmão de três décadas de música com Mauro, Gilson Peranzzetta comparece em duo (Plenilúnio) e trio (Nós, com o astral Villa-Lobos do seu arranjo reforçado pelo violoncelo de David Chew). Uma última colaboração providencial se deveu à volta ao Rio do saxofonista Raul Mascarenhas, depois de décadas em Paris.

Mauro Senise, nesta altura filosófica da vida e da carreira, é o senhor absoluto não só da técnica, mas também da alma do saxofone e da flauta. Johnny Alf pede flauta e ela parece ocupar até mais espaço no CD do que na contagem técnica das cinco faixas. O sax alto aparece soberano em seis faixas, o soprano se mostra a voz ideal para Sonhos e fantasias (arranjo de Cristóvão Bastos) e Olhos negros. É no alto, particularmente, que Mauro encontra o tratamento de timbre adequado para cada tema., usando o rico repertório de recursos da sua palheta, que vai das notas “sujas” do slap tonguing a um sopro límpido e fluente nas baladas. Desta vez ficou de fora o flautim, o chinesinho querido do Mauro: as músicas de Johnny passeiam mais pelo território dos médios e graves, não deixando muito espaço para os saltitantes agudos do piccolo. (Da Agência Anhanguera)

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