Publicado 06 de Outubro de 2020 - 7h27

Acabo de publicar um artigo científico no livro “A Moral do papa Francisco: um projeto a partir dos descartados” por ocasião do 43º Congresso da Sociedade Brasileira de Teologia Moral (SBTM), organizado pelos professores doutores Ronaldo Zacharias e Maria Inês Castro Millen, publicado pela Editora Santuário de Aparecida, 2020. O meu artigo tem como título “A lógica inclusiva do evangelho: uma renovada esperança para a comunidade LGBTQ+". Trata-se de apontar orientações práticas, que auxiliem os párocos no sentido de “acompanhar”, “discernir” e “integrar” a fragilidade no contexto das atividades paroquiais, a partir da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (sobre o amor na família), publicado pelo papa Francisco em 2016, sobretudo, o capítulo VIII.

Para esclarecimentos dos leitores, a comunidade LGBTQ+ pode ser definida da seguinte forma: L: Lésbicas: Mulheres que se sentem atraídas fisicamente e/ou emocionalmente por outras mulheres. G: Gays: Homens que se sentem atraídos fisicamente e/ou emocionalmente por outros homens. B: Bissexuais: Pessoas que se sentem atraídas fisicamente e/ou emocionalmente por ambos os gêneros. T: Transgênero: Pessoas que não se identificam com seu sexo biológico, podendo ser homens ou mulheres transsexuais, além dos não binários, que é quando não há identificação com nenhum dos gêneros. Q: Queer: Pessoa que não se identifica com nenhum dos gêneros e não segue o padrão binário (feminino ou masculino) imposto socialmente. I: Interssexuais: Pessoas que nascem com características que não se enquadram propriamente aos gêneros feminino ou masculino, podendo ser relativas a anomalias cromossômicas, harmônicas ou genital. +: engloba todas as outras orientações sexuais, identidades e expressões de gênero.

Os passos que o papa Francisco apresenta são os seguintes: acolher, acompanhar, educar, discernir e integrar a fragilidade. O papel dos párocos, e seus colaboradores mais próximos, é fundamental nesse processo. Em relação ao acolhimento, o papa Francisco afirma: “não esqueçamos que, muitas vezes, o trabalho da Igfrágeis, marcados pelo amor ferido e extraviado, dando-lhes de novo confiança e esperança, como a luz do farol de um porto ou de uma reja é semelhante ao de um hospital de campanha”, N. 291. Em seguida continua seu pensamento: “por isso, é preciso evitar juízos que não levam em consideração a complexidade das diversas situações e é necessário prestar atenção ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição”. N. 296.

Para o papa Francisco, a Igreja deve ser luz. Assim diz: “A Igreja deve acompanhar, com atenção e solicitude, os seus filhos mais tocha acesa no meio do povo para iluminar aqueles que perderam a rota ou estão no meio da tempestade”. Trata-se de acolher com o coração aberto, sem juízo pré-formado que isola e dificulta o relacionamento, N. 291.

O processo de discernimento supõe aplicar a teoria da gradualidade, formação da consciência, compreensão das situações complexas da vida e dos fatores atenuantes. Assim afirma o papa Francisco: “no discernimento pastoral, convém ‘identificar’ elementos que possam favorecer a evangelização e o crescimento humano e espiritual”. N. 293.

O papa apresenta a teoria da ‘gradualidade moral’ como um elemento importante no processo de discernimento. Assim, ele diz: “nesta linha, São João Paulo II propunha a chamada ‘lei da gradualidade’, ciente de que o ser humano “conhece, ama e cumpre o bem moral, segundo diversas etapas de crescimento”. Não é uma “gradualidade da lei”, mas uma gradualidade no exercício prudencial dos atos livres em sujeitos que não estão em condições de compreender, apreciar ou praticar plenamente as exigências objetivas da lei”., N. 295.

O processo de integração deve ser lento e gradual, respeitando as particularidades de cada comunidade. Não existe receita! É preciso inteligência, criatividade, prudência, sabedoria. Afirma o papa Francisco: “Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objeto da misericórdia “imerecida, incondicional e gratuita”, N. 297.

Afirma, ainda, o papa: “Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho!”, N. 297. A leitura do Capítulo VIII da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia é fundamental para o processo de acompanhamento e integração de todas as pessoas. É preciso tomar cuidado com a criação de grupos específicos. Tenho refletido que o método da integração é o mais apropriado. É preciso cuidar da educação sexual das pessoas, das famílias, das comunidades, das escolas e outras instituições. O objetivo é sempre a educação para o amor.

A teologia inclusiva supõe abertura de mente, capacidade para compreender as pessoas e seus contextos vitais e, ainda, eliminar o preconceito e a ignorância que mata. É preciso, ainda, redirecionar o ensino da própria Teologia Moral, colocando-a no patamar de uma ciência que pratica a caridade e o amor desmesurado.

José Trasferetti, padre, é doutor em filosofia e em teologia. Professor titular da PUC-Campinas e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Moral