Publicado 08 de Outubro de 2020 - 20h23

Por AFP

O leilão de um grande arquivo do poeta chileno Pablo Neruda pertencente a um colecionador espanhol conseguiu vender somente um quarto dos lotes oferecidos nesta quinta-feira (8), após surgirem dúvidas sobre a autenticidade de alguns objetos.

A coleção de mais de 600 peças deveria ter sido leiloada em março como um único lote com preço inicial de 650.000 euros, mas foi adiada devido à pandemia e o arquivo foi dividido em 238 lotes entre 50 e 80.000 euros.

Destes, apenas 65 foram vendidos, por um valor total de 69.350 euros, deixando algumas das peças mais emblemáticas sem licitante, como uma série de cartas entre o ganhador do Nobel chileno e sua família, ou uma primeira edição de "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada" dedicada a Gabriel García Márquez.

O leilão, realizado na galeria Suite de Barcelona, foi ofuscado por informações veiculadas horas antes pelo jornal "El País" que lançam dúvidas sobre a coleção. Como assinalou a Fundação Pablo Neruda ao jornal, 32 dos lotes eram falsos ou duvidosos, entre eles o exemplar dedicado a García Márquez e outros, dirigidos ao ex-presidente do Chile Salvador Allende ou ao escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias.

Além disso, a Fundação Miguel Hernández mostrou-se apreensiva em relação a uma carta do poeta espanhol a Neruda, que foi retirada do leilão.

O dono da coleção, Santiago Vivanco, empresário vinícola espanhol, defendeu a autenticidade do arquivo e vinculou as dúvidas a uma tentativa de desvalorização das peças por duas pessoas ligadas à fundação que também são colecionadores. "Eles estão tentando difamar, remover compradores, levantar dúvidas e comprar mais barato", disse Vivanco à AFP.

Segundo ele, não havia informações sobre essas dúvidas até poucos dias atrás, apesar do fato de "o catálogo ter sido publicado em fevereiro". "Eles sabiam perfeitamente, porque alguns livros que questionam foram expostos sob seus auspícios".

A AFP tentou, sem sucesso, entrar em contato com a Fundação Pablo Neruda.

O colecionador insistiu em que "tudo foi comprado como autêntico" e mostrou um e-mail da viúva de longa data de Gabriel García Márquez, Mercedes Barcha, que afirma não ter "dúvidas de que o livro é autêntico".

"Comprei tudo como autêntico e paguei como tal (...) Estou vendendo por menos do que me custou", insistiu o empresário, que há 25 anos compõe esta coleção por sua paixão pelo poeta.

Em diversas viagens ao Chile e a outras partes do mundo, Vivanco reuniu manuscritos, objetos pessoais, fotografias, primeiras edições e também vários livros autografados pelo autor.

Entre os objetos mais bem pagos, destacam-se a troca de cartas em 1952 com o ex-primeiro-ministro chinês Zhou Enlai (12.000 euros) e uma edição limitada do poema "Toro" com litografias de Pablo Picasso (7.000 euros).

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