Publicado 08 de Outubro de 2020 - 14h34

Por AFP

Na cidade sagrada xiita de Kerbala, no Iraque, peregrinos lembram o martírio do imã Hussein, neto de Maomé, e neste ano também lamentam as mortes mais recentes do general iraniano Qassem Soleimani e seu tenente iraquiano Abu Mehidi al-Muhandis, que em janeiro morreram em um ataque americano em Bagdá.

O Arbain, um dos encontros religiosos mais importantes do mundo, marca o 40º dia de luto pelo martírio do imã Hussein, neto do profeta Maomé e figura fundadora do Islã xiita.

Neste ano reuniu 14,5 milhões de peregrinos do Iraque e de outros oito países, como Irã, Líbano e países do Golfo.

Porém, depois da morte de Soleimani e Muhandis, "este ano, o Arbain ganha um novo significado", explica Haura al-Mayahi à AFP, em uma parada no caminho com comida e acomodação para peregrinos, organizada por mulheres.

Nos primeiros dias de 2020, um ataque de drone americano matou "Hach Qasem" e "Abu Mehdi" - como os peregrinos os chamam - em Bagdá.

O general Soleimani, arquiteto da estratégia militar de seu país na região, especialmente no Iraque e na Síria, era o responsável pela força Quds, uma formação de elite encarregada das operações estrangeiras da Guarda Revolucionária.

"Esta peregrinação tem um significado espiritual particular porque eles já não estão aqui e sofremos uma grande perda", conta a fiel xiita, coberta da cabeça aos pés por um véu negro que apenas deixa seus olhos a vista.

"E desde que eles se foram, nada vai bem", acrescenta.

Desde janeiro, a tensão entre o Irã e os Estados Unidos vem aumentando. Os dois países, desejando exercer influência no Iraque, várias vezes estiveram prestes a entrar em confronto direto.

Em setembro, Washington ameaçou fechar sua embaixada em Bagdá se os ataques a alvos americanos atribuídos a milícias pró-iranianas não parassem.

Na quarta-feira, um incidente perturbou o Arbain e ameaçou potencializar as tensões já existentes.

Uma procissão de manifestantes com retratos dos "mártires" da "Revolução de Outubro", movimento de protestos sociais que abalou o país no ano passado, não foi autorizada a entrar no mausoléu do imã Hussein e foi dispersada pelas forças de segurança.

Quase 600 manifestantes morreram no ano passado durante a repressão dessa manifestação popular que tomou proporções sem precedentes, e que pedia por uma profunda renovação da classe política iraquiana e o fim da influência de Teerã no Iraque.

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