Publicado 07 de Outubro de 2020 - 9h53

Por AFP

Qual é o estado de saúde real de Donald Trump? As informações oficiais desde que anunciou ter contraído o novo coronavírus confirmaram que a saúde do ocupante da Casa Branca continua sendo um segredo bem guardado, objeto inclusive de encenações na era das redes sociais.

Desde que o presidente informou na sexta-feira passada (2) que contraiu o vírus, as declarações de seu médico, Sean Conley, foram muitas vezes confusas, parciais e até desmentidas pelo chefe de gabinete da Casa Branca.

De fato, nada obriga os presidentes americanos a comunicar seu estado de saúde, destaca Matthew Algeo, que escreveu sobre as mentiras recorrentes dos presidentes dos Estados Unidos no livro "The President is a Sick Man" ("O presidente é um homem doente", em tradução livre).

"Tem como base a honestidade e depende completamente do que querem nos dizer", completa.

Os presidentes, em geral, não têm nenhum interesse em revelar a potencial gravidade de seus problemas de saúde.

"Os presidentes detestam parecer fracos. Fariam qualquer coisa para evitar isso", explica.

E isso especialmente a menos de um mês de uma eleição, na qual Trump busca um novo mandato e aparece atrás de seu rival democrata, Joe Biden, nas pesquisas de intenção de voto.

A escolha do médico do presidente, em geral um militar, como o doutor Conley, que serviu na Marinha, é "estruturalmente" uma fonte de conflito de interesses, destaca Rose McDermott, especialista em saúde dos presidentes americanos, da Universidade de Brown.

"Ele é médico do presidente, e o presidente é seu comandante em chefe: se o presidente não gostar do que ele afirma, pode não apenas demiti-lo, como também suprimir sua aposentadoria", disse.

"Podemos pensar que protege a confidencialidade de seu paciente, mas também está em jogo sua carreira e sua situação financeira", completa.

A história dos Estados Unidos está repleta de mentiras sobre a saúde dos presidentes, destacam os analistas.

O presidente Woodrow Wilson teve um derrame cerebral em 1919, sobre o qual ninguém falou publicamente até fevereiro de 1920. Gravemente afetado, parcialmente paralisado, foi sua segunda esposa, Edith Wilson, que comandou o governo até o fim de seu mandato, em 1921, sem que o público soubesse de sua influência.

Dwight Eisenhower minimizou a gravidade da crise cardíaca que sofreu em 1955, e John F. Kennedy não falou nada sobre a doença de Addison, uma insuficiência hormonal.

O assassinato de JFK em 1963 resultou, no entanto, na aprovação em 1967 da 25ª emenda da Constituição americana, que prevê a transferência de poder ao vice-presidente em caso de morte, ou de incapacidade do chefe de Estado.

À exceção de um ferimento grave - como o que sofreu Ronald Reagan quando foi atingido por um tiro em 1981, e seus poderes foram então transferidos para seu vice-presidente, George Bush -, as circunstâncias nas quais o Congresso pode declarar um presidente incapaz de exercer suas funções não estão definidas de modo preciso, destaca Algeo.

Escrito por:

AFP