Publicado 06 de Outubro de 2020 - 9h08

Por AFP

Dezenove anos depois de os Estados Unidos lançarem ataques aéreos contra o regime talibã no Afeganistão e iniciarem o que se tornaria a guerra mais longa de sua história, os insurgentes estão mais fortes do que nunca.

A invasão de 7 de outubro de 2001 derrubou rapidamente os talibãs, que abrigavam a Al-Qaeda - o grupo por trás dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, nos quais quase 3.000 pessoas morreram.

Duas décadas após o colapso de seu brutal regime islâmico, os talibãs pressionam por um retorno ao poder, após assinarem um acordo histórico com Washington, em fevereiro passado, sobre a retirada das tropas americanas. Também se encontram no meio de negociações de paz com o governo afegão.

Na população, muitos temem, porém, a chegada de uma nova era de influência dos talibãs e duvidam de que tenham mudado desde os tempos sombrios de seu regime, quando mataram mulheres acusadas de adultério, atacaram grupos religiosos minoritários e proibiram as meninas de irem à escola.

"Lembro-me do regime talibã como um pesadelo. Tememos pelo nosso futuro e pelo futuro da minha filha", disse Katayun Ahmadi, uma mãe de 26 anos que mora em Cabul.

Ela se lembra de ter visto mãos e dedos decepados nas ruas de Cabul para punir delitos menores, seguindo a interpretação estrita da lei islâmica por parte dos talibãs.

A invasão de 2001 permitiu algumas melhorias para os jovens afegãos, especialmente as meninas, e permitiu uma Constituição que garantisse certas liberdades, incluindo o direito à educação.

Até agora, no entanto, nas negociações de paz de Doha iniciadas no mês passado, os talibãs disseram quase nada sobre questões como direitos das mulheres, ou liberdade de expressão.

O marido de Ahmadi, Farzad Farnood, de 35 anos, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Afeganistão, diz que o aumento da violência dos talibãs desde que assinaram um acordo com Washington mostra que eles não mudaram.

"Isso é dar esperança aos afegãos? Não, não é", diz ele.

Quando adolescente, ele testemunhou os talibãs apedrejando uma mulher e presenciou execuções públicas e açoitamentos no estádio de futebol de Cabul. Sua família também teve de esconder a antena de sua televisão em preto e branco em uma árvore quando os talibãs proibiram a música e o entretenimento no país.

"Todas as conquistas que tivemos nos últimos 18 anos não existiam na era talibã", insiste.

Em um comunicado divulgado nesta terça-feira (6), os talibãs afirmaram que, em 2001, os Estados Unidos "rejeitaram arrogantemente" seus pedidos de negociação e decidiram lançar uma "invasão brutal".

"Os Estados Unidos, seus aliados e coalizões teriam se livrado da infâmia e dos crimes de guerra, assim como de grandes perdas humanas e materiais", acrescentaram, garantindo que esperam poder criar um "governo islâmico soberano".

Zia-ul-Rahman, um ex-insurgente que lutou contra tropas estrangeiras e forças do governo afegão por quatro anos, disse à AFP que os talibãs pressionam para "estabelecer um sistema islâmico", embora a Constituição do país já dê primazia à religião.

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