Publicado 06 de Outubro de 2020 - 8h33

Por AFP

Os resultados das eleições legislativas de domingo no Quirguistão foram anulados nesta terça-feira (6), após os grandes protestos que deixaram um morto e mais de 100 feridos no país.

"Os resultados das eleições legislativas que aconteceram em 4 de outubro de 2020 foram invalidados", anunciou a Comissão Eleitoral da ex-república soviética da Ásia central.

A decisão foi anunciada depois de uma noite de protestos, na qual os manifestantes libertaram um ex-presidente da prisão e invadiram prédios oficiais.

Pouco antes do anúncio da Comissão Eleitoral, o presidente do Quirguistão, Sooronbai Jeenbekov, afirmou que "controlava a situação".

Jeenbekov, de 61 anos e eleito em 2017, anunciou que havia ordenado às forças de segurança que não atirassem contra os manifestantes e que pediu à Comissão Eleitoral Central que "examinasse cuidadosamente todas as irregularidades e, se necessário, anulasse os resultados das eleições", o que aconteceu poucas horas depois.

O controverso resultado das legislativas, com vitória dos partidos favoráveis ao presidente, levou milhares de opositores às ruas da capital Bishkek. Eles pediram a renúncia do presidente e a convocação de novas eleições.

Os confrontos com a polícia terminaram com pelo menos um morto e 120 feridos, que foram hospitalizados, metade deles agentes das forças de segurança, segundo o ministério da Saúde.

Durante a madrugada de terça-feira, os manifestantes invadiram a sede do governo e também libertaram da prisão o ex-presidente Almazbek Atambayev, rival de Jeenbekov, que cumpria pena de 11 anos de reclusão e aguardava um novo julgamento.

Ele foi acusado de provocar distúrbios e por assassinatos, em atos vinculados a sua detenção em 2019, quando uma onda de violência também ameaçou desestabilizar o país.

Os manifestantes libertaram Atambayev "sem usar a força ou armas", declarou à AFP um de seus partidários, Adil Turdukuov.

Outras personalidades políticas que estavam detidas também foram liberadas por manifestantes. Os protestos recordam os de 2015 e 2010, que derrubaram governos acusados de corrupção e concentração de poder, em atos que também foram marcados por saques.

Na segunda-feira, ao menos 5.000 pessoas se reuniram na praça Ala-Too, perto da sede da presidência e gritaram frases contra o governo, como "Fora Jeenbekov" e "Fora Matraimov", em referência ao presidente e a um ex-alto funcionário do regime acusado de corrupção.

A polícia usou bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes.

Os protestos foram convocados por cinco partidos que não alcançaram a barreira de 7% necessária para entrar no Parlamento.

Nesta terça-feira, líderes da oposição anunciaram a formação de um "conselho de coordenação" para restaurar a estabilidade e "restabelecer a lei".

Cercado por regimes autoritários, o Quirguistão, país pobre, é uma exceção democrática na Ásia central, mas as transições políticas sempre são conturbadas.

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