Publicado 05 de Outubro de 2020 - 18h43

Por AFP

Há oito anos, dois jovens imigrantes sem documentos fizeram algo impensável: se deixaram ser parados por guardas de fronteira nos Estados Unidos para se infiltrar em um centro de detenção privado na Flórida, com o objetivo ambicioso de impedir as deportações estando dentro do local.

A um mês antes das eleições em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, busca sua reeleição para continuar sua agenda anti-imigração, o documentário "Los Infiltrados" fala sobre a "fuga ao contrário" desses ativistas na televisão pública nacional, a PBS.

"Uma das questões centrais deste filme é qual liberdade, poder e dignidade os migrantes devem ter neste país, também uma das questões desta eleição", explica o cineasta peruano-americano Alex Rivera à AFP, que co-dirige esse documentário com sua esposa, Cristina Ibarra, uma americana de origem mexicana.

"Os direitos da população que não possui documentos nos Estados Unidos talvez nunca tenham sido um tema tão em alta e tão importante como agora", afirma Rivera, que descreve o filme como a história de um grande golpe, "um "Onze Homens e um Segredo" da imigração".

Embora o ex-presidente americano Barack Obama tenha sido chamado de "deportador-em-chefe" por causa do grande número de imigrantes que tirou do país, desde que Trump chegou ao poder o número de imigrantes sem documentos presos pela polícia de imigração (ICE) aumentou 50%.

O atual presidente prometeu construir um muro com o México e acelerar as deportações dos mais de 10 milhões de estrangeiros sem documentos que vivem no país.

Ocorreram em média 50.000 detenções por dia em 2019, segundo um relatório divulgado em abril pela União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), o Human Rights Watch e o National Center for Immigrant Justice.

"Los Infiltrados" - que poderá ser visto até 5 de novembro no site pov.org (Point of View), programa da PBS para filmes independentes de não-ficção - conta a história verídica de dois membros da Aliança Nacional de Jovens Imigrantes, um grupo de radical de "Dreamers".

O documentário é baseado em material documental e remontagens do que aconteceu dentro do centro de detenção do condado de Broward, na Flórida.

Os diretores filmaram os ativistas - incluindo os dois infiltrados, Marco Saavedra e Viridiana Martínez, que vieram do México para os Estados Unidos ainda crianças - enquanto planejavam e organizavam sua campanha a partir de um "local seguro".

O objetivo é que o público possa curtir "uma boa história", e também "veja uma questão conflituosa sob uma nova luz", com imigrantes que são "agentes do seu próprio destino", ressalta à AFP Ibarra, também autora de outro documentário sobre a fronteira sul do Texas, intitulado "Las Marthas".

Em 2019, um dos protagonistas do filme, o argentino Claudio Rojas - que os "infiltrados" buscam libertar da prisão - foi preso novamente após a exibição do filme no Festival de Sundance.

Ele foi deportado após passar 20 anos nos Estados Unidos, uma semana antes da estreia do filme na Flórida.

"Foi horrível (...) Foi como reviver o filme, mas com a gente lá dentro", contou Ibarra.

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