Publicado 05 de Outubro de 2020 - 9h13

Por AFP

Com o anúncio dos Prêmios Nobel esta semana, surge uma pergunta recorrente: os prêmios mais prestigiosos do mundo em física, química e medicina estão desatualizados, visto que a ciência moderna é feita principalmente de forma coletiva?

Esses prêmios datam de 1901, período em que a maioria das descobertas ocorria na mente, ou no laboratório, de um único indivíduo.

Hoje, no entanto, a maioria dos marcos científicos é alcançada por meio de colaborações envolvendo dezenas, ou centenas, de pesquisadores, trabalhando em campos diferentes, mas interligados.

Por exemplo, duas equipes de 1.500 cientistas descobriram este ano um buraco negro de massa intermediária.

Além disso, os grandes avanços da ciência dependem cada vez mais da tecnologia, às vezes usada - especialmente na física - para testar fenômenos teorizados antes mesmo do nascimento dos pesquisadores contemporâneos.

"A recusa do Comitê Nobel em recompensar mais de três pessoas causou injustiças manifestas", disse à AFP Martin Rees, ex-presidente da Royal Society of London e do British Astronomer Royal.

Assim, há vários casos de um quarto homem, ou mulher, que ficou sem o prêmio, apesar de tê-lo merecido. Rees cita como exemplo Tom Kibble por seu trabalho sobre a partícula subatômica conhecida como bóson de Higgs.

Outros lamentam que o virologista americano Robert Gallo não tenha sido reconhecido por sua contribuição para a descoberta do vírus da aids; a britânica Rosalind Franklin, por seu trabalho pioneiro sobre o DNA; e o físico italiano Adalberto Giazotto, por seu papel na detecção de ondas gravitacionais.

Essa limitação também "deu uma impressão errada de como a ciência está progredindo", acrescenta Rees, observando que os Nobel excluem "grandes áreas", como matemáticas e ciências ambientais.

Mesmo os maiores defensores dessas recompensas reconhecem que a ciência mudou radicalmente desde a era de nomes como Albert Einstein e Pierre e Marie Curie.

"É verdade que a ciência moderna é frequentemente realizada entre grandes grupos de pessoas em interação", admite Erling Norrby, um virologista sueco, que participou por décadas da atribuição dos prêmios científicos.

"Mas a questão é se podemos identificar um, ou dois, líderes, e acho que podemos saber quem liderou a iniciativa", argumenta.

Além disso, tanto o Instituto Karolisnka, que atribui o Prêmio Nobel de Medicina, quanto a Real Academia Sueca, responsável pelas áreas de Física e Química, evoluíram com o tempo.

Entre 1920 e 1930, 23 dos 30 prêmios foram concedidos a cientistas individuais e, na década após a Segunda Guerra Mundial, o número caiu para 19. Nos primeiros 20 anos deste século, isso aconteceu apenas quatro vezes.

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