Publicado 16 de Setembro de 2020 - 19h05

Três espetáculos solos, envolvendo coproduções Alemanha-Brasil, Colômbia-Argentina e uma brasileira dão continuidade hoje a programação da 11ª Bienal Sesc de Dança, maratona que concentra cerca de 50 ações cênicas, entre espetáculos, instalações, performances e atividades formativas vindas de oito estados brasileiros e de 12 países, da Europa e das Américas. TRRR, de Thiago Granato, brasileiro radicado na Alemanha, onde o espetáculo estreou; Só, solo da mineira Denise Stutz; e Daimón, do artista colombiano Luís Garay e performada e cocriada pela atleta argentina Maia Chigioni, são os espetáculos em cartaz, respectivamente no Ginásio e Teatro do Sesc, e no CIS Guanabara.

O público pode conferir ainda duas performances: Dentro, do Coletivo Qualquer, formado por Luciana Chieregati e Ibon Salvador, uma coprodução Brasil-Espanha, hoje e amanhã, às 11h e 16h, na Estação Cultura; e Sumo, da brasileira Júlia Rocha, hoje e amanhã, às 19h, na Sala Multiuso do Sesc; além da instalação O Peixe, da paulistana Érica Tessarolo, hoje e amanhã, às 17h, na Casa de Vidro, no Lago do Café. Os três trabalhos têm entrada franca.

Os espetáculos

Uma espécie de futuro arcaico está presente em TRRR, solo concebido e performado por Thi’ago Granato. Com o espetáculo, o artista encerra o projeto Coreoversações, trilogia produzida a partir de uma pesquisa desenvolvida com diferentes colaborações imaginárias entre coreógrafos que “conversam entre eles” usando o corpo do performer como meio de comunicação. Em Treasured in the Dark, o primeiro solo, Granato trabalhou com coreógrafos mortos. Depois, em Trança, com vivos e, agora, em TRRR, com coreógrafas que ainda não nasceram. Uma pedra e uma onça (um mineral e um animal) foram as entidades escolhidas pelo artista para representarem os coreógrafos de um futuro idealizado, influenciado por certas culturas indígenas da Amazônia e Austrália. A metamorfose do corpo, assunto comum aos três solos, é entendida como a capacidade do corpo relacionar forças internas e abstratas com signos que possam ser reconhecidos e vice-versa. Na coreografia, essa relação é articulada de forma ritualística. A transformação é abordada como uma tecnologia do corpo capaz de reinventar as suas próprias conexões com outras formas de vida, reais e imaginárias, através da performance.

Em Só, uma mulher se prepara para sua última apresentação no teatro. A partir dessa ficção, Denise Stutz une palavra e movimento para dar ritmo ao corpo. Utilizando aspectos da dança e do teatro, a artista tem como interesse as maneiras de construir narrativas. Há três anos, tomando como referência autores como o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) e o irlandês Samuel Beckett (1906-1989), a artista mineira que vive no Rio de Janeiro começou a escrever o texto do solo. A ideia era convidar o público a refletir sobre a passagem do tempo e a velhice, entre outros assuntos. A partir da questão do desaparecimento surge uma brecha entre o espectador e a intérprete. Na narrativa, as fronteiras do teatro precisam ser borradas para que essa história se transforme em outra. Ao espectador fica o encargo de dar continuidade à existência da artista ou de decidir pelo seu desaparecimento.

Concebido pelo artista colombiano Luís Garay e performada e cocriada pela boxer argentina Maia Chigioni, Daimón investiga, por meio da experiência física, territórios de transição entre natural e cultural, humano e não humano, orgânico e inorgânico. Eles se perguntam o que significa o movimento para os corpos inscritos em um contexto em que a lógica do trabalho traz condicionamentos dados pelo treinamento e a disciplina. O solo, porém, não é um posicionamento moral ou ideológico. Ataques e defesas, ações presentes nas práticas esportivas, também podem criar, paradoxalmente, uma dança de resistência. Garay partiu de referências como a peça televisiva Quad, criada em 1981 pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), para abordar temas como o delírio, a mania, a alienação, a liberdade e a ruptura do corpo como unidade completa e terminada.