Publicado 16 de Setembro de 2020 - 5h30

"Quero deixar essa história para trás. Não sentir mágoa, nem ciúme, nem saudade. Não ficar esperando que cheguem ligações e mensagens. Esquecer para sempre, de uma vez."

Ouço seu lamento em silêncio. Não faz sentido consolar ou aconselhar quem sente algo tão intrínseco ao sofrimento humano: desejo de não desejar. Desejo de desprendimento. Sei que apego não é exclusividade nossa, mas é uma especialidade involuntária. Resistimos a separações mesmo quando compreendemos que é preciso deixar o outro ir - para outra vida, para outro mundo. Ela própria explica que chegaram a um impasse. O que considera ser um namoro parece não existir no dicionário íntimo desse homem por quem se apaixonou. Ele a convida para uma espécie de delírio-idílico, um sonho de vida intensa e harmônica reservada para um futuro incerto. Quer tudo com ela, porém "algum dia". Ela quer desde hoje segurar as mãos dele e atravessar tardes infinitas de domingo. Quer dividir coisas triviais: cafés, livros, filmes, viagens, dúvidas, espantos. Quer amar sua presença única "oito dias por semana", como diz a música dos Beatles. Quer alongar as noites frias, quer abreviar as noites quentes. Quer viver perto de suas imperfeições e descobrir se continuarão encantadoras para ela, fazendo-a rir. Agora prefere esquecê-lo. Não quer mais a angústia da espera bem-comportada, que finge mansidão quando, no fundo, deseja urgentemente deixar de esperar. O problema é que nascemos famintos de amor e nada livra-nos dessa sina. Podemos bradar triunfantemente que somos autossuficientes com nossas vidas interessantes mas isso não passa de uma ficção sedutora que traz alívio efêmero e impressiona multidões nas redes sociais. Humanos atrofiam e adoecem sem amor. Humanos não esquecem quem amaram. Humanos dependem de amores humanos, gostemos disso ou não.

Imagino que meu gato sofreria se eu morresse hoje. Talvez ficasse semanas encolhido pelos cantos, à espera de quem o alimentava desde filhote e o aninhava nos braços todas as noites quando voltava para casa. A porta se abriria e aqueles imensos olhos amendoados procurariam em vão quem nunca mais voltaria a entrar pelo tapete colorido do Paquistão que Leo elegeu seu posto de vigília, de onde testemunha minhas partidas e chegadas. Não sabe localizar o Paquistão no mapa, não sabe que seus antepassados viveram no Irã, não sabe quase nada além do que há para cá dos muros da nossa casa. Se eu desaparecesse, por algum tempo seu pequeno universo ficaria desolado. Quanto demora até um gato compreender a irreversibilidade de uma separação? Até desistir da ternura única daquele ser humano e, então, lançar-se medrosamente a um novo amor? Não sei responder mas suspeito que gatos sejam melhores do que pessoas quando se trata de elaborar uma perda. Somos lentos e teimosos. Sequer podemos dizer que nossos lutos um dia terminam. Não é a toa que a psicanálise usa expressões sugestivas de um processo. "Obra de sepultamento", diz Pierre Fedida. "Trabalho do luto", já sugeria Sigmund Freud, ao utilizar a imagem de laços que - um a um - desfazemos com a relação perdida. É uma tarefa árdua, feita de inconstâncias. Até que reste nada? Até que o último laço seja afrouxado? Não. Até que possamos estender alguns desses fios a outra pessoa, outra vontade, outra conquista. E, inesperadamente para nós mesmos, já tão descrentes, criar um tecido que nos envolva ao que começamos a amar depois do longo tempo de recolhimento solitário que segue uma perda.

E, dentro de nós, recobrir o velho amor com um manto protetor de fios indestrutíveis.

Li recentemente que o verbo "esquecer" em alemão denota ações de afastamento: soltar, deslizar, abandonar. Em latim esse sentido é reafirmado: excadescere, de onde surge esquecer, significa cair para fora. Ir embora, para longe de nós. Em parte é o que dizemos as memórias quando enfrentamos finais: "Afastem-se!"

O verbo em grego, por sua vez, captura outra dimensão do esquecimento: cobrir, guardar, esconder. Lethe (esquecer) é retirar da visão, daí Alethea ser a palavra grega que denota verdade. O que esquecemos é uma verdade que nunca desaparece, apenas repousa. Está viva em nós, sob a trama inacabada de fios que precisamos tecer feito artesãos sem pressa, desses que já quase nem existem.