Publicado 15 de Setembro de 2020 - 5h30

Efetivamente uma pessoa, para ser considerada rica, próspera, não precisa possuir cinco mil imóveis, entre casas, apartamentos, barracões, armazéns e até silos. Mas era exatamente este o espantoso número que, na São Paulo dos anos 60/70, o bom Manuel, imigrante português, exibia em seu organograma de homem trabalhador. Conseguiu esse fantástico feito de forma que, contada assim numa crônica, pode até parecer simples. Afinal, nosso herói começou construindo uma casinha aqui e outra ali. Só que, no correr de vários anos, passou a erguer grandes conjuntos com 150 residências ou mais; vendia uma parte, conservava outra, até chegar, entre as guardadas, à exuberância resumida no título destas linhas.

Este incrível pé-de-boi, mesmo depois que nadava na fortuna realmente caudalosa, nunca deixou de ser um homem simples. O máximo de desfrute a que se permitia era, de vez em quando, uma viagenzinha com a esposa a Portugal. E, aqui no Brasil, nos fins de semana, algumas taças de vinho com os amigos. Nessas ocasiões, quando alguém lembrava da sua prosperidade acachapante, costumava dizer, com sorriso realmente sincero pendurado nos cantos dos lábios:

- Minha maior riqueza são meus dois filhos.

E, de fato, criou com imenso carinho o casal: Pedro e Norberta, gêmeos. O que, certamente, Manuel não esperava jamais era que, ao fim e ao cabo, usufruiria por menos tempo do que desejava a companhia dos rebentos. Isso porque quando eles ainda cursavam a universidade, o trabalhador lusitano, certa manhã, ao se preparar para ir pro escritório, deixou cair a xícara que levava à boca, no café matinal. Em seguida, ele mesmo tombou para o lado, estatelando-se no chão de mármore da copa da imensa, luxuosa mansão. Morto, total e inapelavelmente morto.

Dona Edmilsa, a esposa, vendo aquilo, desmaiou. Foram as empregadas que ajudaram, pois os filhos já tinham saído para as faculdades. E, após o sepultamento, na continuação dos dias, o rapaz e a moça viram, espantados, a mãe desmilinguir. Em coisa de menos de mês ela também era levada para o cemitério, no interior de um esquife de madeira negra com arabescos dourados. O que poderia levar à suposição de ser revestido d’ouro; cravejado com brilhantes.

O cenário, agora, é de Pedro e Norberta donos da fortuna inacreditável de cinco mil imóveis. Estudantes muito jovens, no começo chegaram a parecer meio perdidos. Porém, no DNA de cada um, certamente, havia a herança genética para negócios do velho Manuel. Em coisa de menos de ano o rapaz e a moça largaram os estudos, para cuidar exclusivamente do que receberam. E, adiante, quando pintaram algumas divergências quanto à administração dos bens, sem brigas, resolveram dividir o fabuloso espólio. Cada um se tornou dono de 2.500 imóveis.

Como se isso fosse um filme, façamos um corte. Vinte e poucos anos depois nem Pedro nem Norberta haviam formado famílias. E se, de um lado, o rapaz gostava muito de cuidar e até ampliar o que havia recebido, a irmã começou a desenvolver certo tédio, angústia, cansaço, quase horror em ter que administrar a fábula. Daí que, em determinado momento, revolveu se desfazer do estupendo número de casas, apartamentos, armazéns, terrenos etc. que havia recebido. Assim, no decorrer de algum tempo, com a maior parte dos bens transformados em aplicações no exterior e um número bem menor de imóveis, Norberta passou a se sentir livre. Nessas condições, já cinquentona conheceu, numa viagem ao Guarujá, um moço, bem mais jovem do que ela e simples garçon de bar, chamado Jayme. Galã, pintosíssimo. O George Clooney, perto dele, não passava de um Renato Aragão.

- Graças a Deus – pensou – que já não tenho tantos negócios para administrar. Agora, é viver para o amor.

Mais alguns meses se passam. Com ela bancando tudo e apaixonadíssima pelo duro porém formoso Jayme, estavam, certa tarde, num hotel de luxo na Riviera francesa quando o telefone toca. A dona atende, era do Brasil, chamada do advogado que cuidava dos seus ganhos:

- Não tenho boas notícias – ele diz.

- O que? Não faça rodeios, diga logo! – Ela arregala os olhos.

- Seu irmão, como o seu pai, teve um infarto. Está morto.

Ouvindo, ela permanece calada, muda. É o advogado que volta:

- Necessito da sua presença aqui.

- Precisa? Pra que?

- É que a fortuna dele, não mais 2.500, mas agora três mil e tantos imóveis, ficou toda para a senhora.

- Três mil imóveis? Você enlouqueceu? Quer que eu também morra pra me livrar disso como quase fui a óbito para tirar da minha vida os 2.500 que recebi do meu pai? Dê essa porcaria para quem você quiser que eu não quero não!

Bateu o telefone, com raiva. Daí caminhou, lentamente, e sentou no colo do belo Jayme. Após um longo, quase eterno beijo na boca, pediu:

- Vai, querido, pegue o Champanhe que colocamos de manhã na geladeira...