Publicado 12 de Setembro de 2020 - 5h30

Outro dia me deparei em uma rede social com a selfie mais inesperada que tinha visto até então. É esta da foto. Mais adiante falarei sobre ela.

Fez-me pensar sobre o conceito - onde teria surgido? Por alguma razão imediata o retrato de Van Gogh me veio à mente: uma belíssima selfie ou, em nossa língua, autorretrato, pintado, datado de 1889. Ele fez alguns, inclusive um com a orelha cortada; e um destes foi também um de seus últimos quadros - o retrato dele mesmo.

Minha mente seguiu vasculhando um pouco lembranças de outros conhecidos autorretratos das pinturas. Em 1510 Leonardo de Vinci fez sua 'selfie' (em desenho a carvão), Picasso também fez a dele, Frida Khalo a sua inúmeras vezes: teria pintado mais de 60 autorretratos; muitos deles quando acidentada. E muitos outros.

Procurei na Internet de onde viria o termo - selfie -, já que o autorretrato de alguma maneira parece ter existido desde há muito tempo. Em fotografia propriamente dita, li que o inventor do autorretrato acredita-se ter sido Robert Cornelius (pioneiro americano da fotografia e fabricante de lâmpadas), com um opaco autorretrato de 1839. No entanto, a palavra selfie só passou a ser utilizada com esse sentido no ano de 2002, num fórum australiano on-line. Ali em uma postagem digital, alguém teria dito a respeito de sua própria foto, ao figurar-se um pouco bêbado, caído e com o lábio inferior machucado: "Desculpem o foco, isto foi uma selfie".

E aí a febre começou. Numa estimativa generalizada, diz-se que hoje mulheres fazem 12 selfies a mais por dia que os homens (dado curioso). Por outro lado, li também em minha breve pesquisa que de acordo com um estudo realizado na Universidade de Parma, na Itália, selfies revelam uma leve tendência em mostrar a face esquerda de quem está sendo fotografado - semelhante a retratos de pintores profissionais de muitos períodos e estilos históricos.

Tivemos inicialmente o pau-de-selfie, já um pouco obsoleto hoje em dia - os celulares digitais acabariam por criar dispositivos para que seu próprio dono pudesse se fotografar mais facilmente. As tais selfies também recebem técnicas de seus usuários na hora dos registros, como a busca pelo "ângulo e olhar perfeitos". A busca pela selfie perfeita, porém, tem causado até mortes pelo mundo. Num dado assustador de uma pesquisa realizada nos EUA, que compilou fatos de 2011 a 2017, o número de pessoas que morreram enquanto tentavam tirar fotos de si mesmas em situações arriscadas teria sido de 259: afogamento, acidentes de transporte e quedas sendo as causas mais comuns.

Estudos sociais e psicológicos averiguam o sentido de tudo isto: autoexpressão, autopromoção? Para além do fenômeno social, para cada um há de ter um sentido. No final das contas, o que queremos quando tiramos nós mesmos uma foto nossa e a divulgamos? Que olhar buscamos, que impressão desejamos registrar no olhar do outro?

Há certamente algo de narcísico em tudo isto - algo de nós mesmos, de nossas necessidades e desejos. Sermos vistos, sermos apreciados e admirados. Mesmo que se machucados (como na primeira selfie australiana) ou descabelados (acontece menos, mas já vi também). Às vezes busca-se o olhar da pena e da compaixão (como nas fotos de cachorros machucados ou acidentados, não exatamente selfies neste casos mas selfies por extensão, para aqueles que não podem fazê-la).

Busca-se também, creio, reparar-se - refazer e reconstruir a própria imagem: como possivelmente Frida Khalo ao reconstruir vez após outra, seu rosto e seu corpo sobre uma tela.

Busca-se sempre algo. Ensina-nos a Psicanálise que, aquele primeiro olhar - geralmente o da mãe - que supostamente nos preencheu com amor, orgulho, esperança e admiração, é o olhar que iremos buscar, conscientemente ou não, vida afora.

O problema se dá, creio, ao buscarmos este olhar lá onde ele não está. Ou, quando buscamos no fim das contas, não o olhar, mas somente a nossa própria imagem, num fim em si mesmo. Como teria sido o que se passou com Narciso. Ao buscar sua selfie - sua própria imagem - no reflexo do lago, acabaria por afogar-se.

O que me tocou nesta foto de Rafael, foi o olhar que ele nos convida para além dele mesmo - para seu universo, neste caso.

Diz ele: "O ponto luminoso que vocês estão vendo na minha mão é nada menos que o maior planeta do nosso sistema solar: Júpiter. Logo acima se estende a faixa da nossa galáxia, Via Láctea. Nenhuma iluminação artificial foi utilizada, e a imagem é resultado de um quadro único com 30 segundos de exposição. Não sou de tirar selfies, mas, como não havia mais ninguém por perto na hora da foto, não teve jeito. O alinhamento levou certo tempo até acertar sozinho: enquadra a foto, corre para a posição, volta, confere, realinha, repete - durante mais de uma hora".

Até que ele conseguisse sua selfie. E o convite para olharmos, quem sabe, para um pouco além de nós mesmos e de nossa superfície. (Foto feita em julho deste ano, em Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros - Goiás).