Publicado 23 de Setembro de 2020 - 5h30

Faz algum tempo eu estava em Belém do Pará trabalhando num artigo (para uma revista portuguesa) sobre o escritor paraense Inglês de Souza (1853-1918) que, com seu romance O Coronel Sangrado, de 1877, introduziu o naturalismo na literatura brasileira. Vinha, na tarefa, sendo ajudado por uma amiga funcionária da Biblioteca e Arquivo Público da cidade, que já me avisara ter outros livros do autor à minha disposição. Na manhã em que liguei para avisar que passaria para pegar, ela pediu que eu fizesse isso no dia seguinte, pois atendia a um pesquisador de Campinas. Ouvindo o nome da cidade, resolvi passar no endereço assim mesmo, só para ver de quem se tratava.

Assim foi que, de repente, dei de cara com o escritor e historiador Jorge Alves de Lima praticamente naufragado numa montanha de números antiguíssimos dos jornais Folha do Norte e Província do Pará, além de outros documentos. Perguntei do que se tratava:

—Estou cavando – respondeu — tudo o que for possível cavar sobre os últimos dias do compositor Carlos Gomes aqui na cidade. Muito já foi contado. Todavia, ainda há muito a contar.

Bom, o resultado do trabalho hercúleo (adoro essa palavra) do conhecido intelectual resultou numa “quadrilogia” cujo terceiro volume, O Sono Eterno no Seu Berço Natal, estará sendo entregue ao público campineiro na semana entrante. A primeira festa, no lindo Theatro da Paz, em Belém, ocorreu dia 12 último, com fila quilométrica dos que foram adquirir a obra.

Bom, aqui e agora, o que é importante falar é que este novo livro de Jorge, mais uma vez, abre leque absolutamente fantástico para todos os que se interessam pela vida e obra do autor da ópera O Guarani. No grosso volume é contada a saga que começou com a morte do compositor até a chegada do seu corpo a Campinas, cerca de um mês depois, para o sepultamento. O material que o autor expõe para que se acompanhe a viagem do navio Itaipu, cedido pelo Governo Federal, trazendo o esquife desde Belém, é fascinante. São notícias e comentários em jornais dos portos por onde a embarcação passou, o que permite a visão de um quadro perfeito daquele que foi, realmente, um dos mais impressionantes funerais que o Brasil já viu.

Mas há algo que comentei, neste mesmo Correio Popular, quando do lançamento dos dois primeiros livros, que não dá para deixar de destacar novamente. Refiro-me ao panorama que as pesquisas de Jorge Alves de Lima expõem de como corria a vida em Belém, e nesta Campinas, nos meses em que o músico esteve em tratamento. E agora, neste terceiro tomo, nos dias em que seu corpo navegou pelos muitos quilômetros que separam a amazônica Baía de Guajará do terminal portuário santista.

Apenas como exemplo, a vol de oiseau, lembro que, enquanto Carlos Gomes era embalsamado e velado na capital do Pará, ocorria, em Campinas, o famoso incêndio na Casa Cadorna, na Barão de Jaguara com Rua Conceição, no mesmo lugar onde, 56 anos depois, o Cine Rink desabou, tragédia com muitas vítimas.

E inúmeros exemplos há, na obra atual, do correr da vida nas escalas que o navio Itaipu fez, com o registro de impressionantes manifestações diante do corpo embalsamado no Rio de Janeiro; com cerimônias efetuadas na lendária Igreja de São Francisco e no Instituto Nacional de Música.

Porém, de todos os episódios narrados por Alves de Lima, um dos que mais me impressionou talvez tenha sido, até, o mais singelo. O que aconteceu foi que vieram de Belém, acompanhando o esquife até Campinas, algumas autoridades paraenses e, também, um senhor chamado Raul Franco, o enfermeiro que cuidou de Carlos Gomes durante os meses em que o músico esteve doente. Segundo unânimes testemunhos, o profissional da saúde foi de dedicação imensa. E tal, e tanta, que, ao exalar o último suspiro, o compositor chamava por ele.

Pois, estando o enfermeiro em Campinas, um grupo de magnatas locais resolveu ofertar-lhe um presente, como sinal de gratidão. Feita a coleta entre os ricaços, arrecadou-se o suficiente para a compra de um relógio Patek Phillippe de ouro, com grossa corrente do mesmo metal. Como o dinheiro ultrapassou o valor da prenda (hoje um Patek do modelo em questão custa algo como R$ 100.000,00 ou mais), o que sobrou, alguns contos de réis, entregaram ao enfermeiro num envelope. Em banquete na casa do então dono do Bosque dos Jequitibás, o milionário Francisco Bueno de Miranda.

Mas eu dizia que este episódio me tocou, pois quando eu era adolescente em Belém do Pará, em 1950, passados 54 anos do transporte do corpo de Carlos Gomes para Campinas, circulavam, em certos meios intelectuais paraenses, algumas histórias sobre o que o enfermeiro teria feito com a pequena fortuna que ganhou dos campineiros. Isto não está nos livros, nem há registros escritos a respeito, mas contam que ele pegou o numerário e foi para os primeiros garimpos de diamantes em Marabá, sul do Pará, onde passou a comprar a pedra preciosa. Afirmam que, no correr dos anos, ficou riquíssimo, tendo falecido, pouco antes da II Guerra, numa linda mansão na Normandia, depois de ter morado largo tempo em Paris.

Porém, muito mais que isso você encontrará no trabalho de Jorge Alves de Lima que será lançado na próxima quinta, dia 27, em cerimônia na Catedral Metropolitana. Entre 19h30 e 22h30.