Publicado 22 de Setembro de 2020 - 19h05

Há certas recordações, indispensáveis, às quais precisamos recorrer de vez em quando. Pois nelas os fatos em si trazem à tona, também, cenários que foram amados, em ambientes aos quais vale voltar para que deles sintamos até os aromas. Assim é que, neste instante em que escrevo, estou na porta da casa que tive na cidade de Salinas, no litoral do Pará, durante vários anos do século passado. Alguém batera palmas na entrada e fui ver quem era. Corporificou-se em minha frente um homem de, como se dizia antigamente, aspecto humilde, apesar da aparência saudável. Falando bom português, juntou as mãos, como em prece, para me perguntar se eu queria comprar um jacaré.

- O que? – Arregalei os olhos – Um jacaré?

- Sim – ele abriu os braços – lindo. Mais lindo do que uma galinha pedrês!

- Ora – tento conter súbita aflição – e o que achas que posso fazer com um sáurio?

- Com um o que?

- Com um jacaré!

- Bem – o camarada suspira – um bicho desses tem muitas utilidades.

- Pode até ter – concordo – mas veja: ocupo esta casa apenas de vez em quando.

- Como assim?

- Na verdade não moro aqui. Esta é minha casa de praia.

- Ora, então o senhor o levará para Belém.

- Levarei o que?

- O jacaré.

- Mas acontece, meu amigo, que eu também não moro em Belém. Moro em Campinas, no interior de São Paulo.

- E tem casa de praia aqui? – O pinta me olha, espantado – Tão distante!...

- Você vê que sou diferente...

- Ótimo – ele pega a dica – pois somente uma pessoa diferente poderá comprar.

- O que?

- Um jacaré.

- Meu caro – busco as palavras – acho totalmente dispensável, para a minha já atribulada vida, introduzir nela a figura de um sáurio.

- Um o que?

- Um jacaré!

- Nem tanto...

- Como nem tanto?

- Acontece que um jacaré, conforme já lhe disse, tem muitas utilidades.

- Sim, sei – coloco alguma ironia na voz – você deve estar pensando que sou fabricante de bolsas, carteiras ou sapatos.

- Longe de mim – as feições do homem se alteram – não quero vender o jacaré para que seja morto.

- Muito bem – balanço a cabeça – e o que farei com um jacaré vivo?

- Ele tem muitas utilidades.

- Isso você já falou. Mas, até agora, não apontou nenhuma.

- Um jacaré pode ser um animal de estimação.

- Ora, estás brincando... – Quase rosno.

- O senhor poderá deixa-lo em seu quintal. Para a segurança. É muito melhor do que um cachorro.

- Faça-me o favor, meu amigo – eu começava a perder a paciência – Só na sua cabeça poderá entrar que eu usaria um jacaré como se ele fosse o Rin-Tim-Tim.

- Quem?

- É o seguinte, meu chapa -- aprumei a voz – eu, absolutamente, não estou interessado na compra de nada. Muito especialmente um sáurio.

- Um o que?

- Jacaré!

- Tudo bem, o senhor não precisa ficar irritado.

Isso posto o homenzinho virou as costas e saiu. Cerca de quase uma hora depois meu filho, então adolescente, entra em casa esbaforido e me pede mil cruzados, que era a grana da época.

- Mil? – Arregalo os olhos – Você, acaso, está com mania de grandeza?

- Não, pai! – Ele sorri – Mas é que tem um cara ali na padaria oferecendo um jacaré; e eu estou a fim.

Primeiro me apoiei no espaldar de uma cadeira, para não cair. Depois, cocei a ponta do nariz. Até que, de repente, resolvi.

- Muito bem, você vive me pedindo grana pra comprar coisas. Vou te dar os mil, que será tudo que te darei até a volta pra Campinas. Mas tem uma coisa.

- O que?

- Se você me aparecer aqui com um jacaré, mando te fuzilar em praça pública, na frente da igreja matriz.

Rápido, o moleque pegou a grana e saiu. Para voltar horas depois mostrando ser obediente, pois trouxe, financiados pelo numerário que lhe dei, um casal de macacos de bom tamanho, quase chimpanzés, dois robustos jabutis e três picotas (galinhas d’Angola!).

Isso tudo aconteceu pela manhã. De tarde, os micos, soltos na casa, quebraram vários pratos e, sem que alguém se desse conta, conseguiram abrir duas caixas colocadas sobre o aparador. E os Buchanan’s 18 anos que estavam dentro delas, guardados um para o Natal e o outro para o reveillon, se espatifaram no chão, arrancando de minha garganta grito de horror que deve ter atravessado o Atlântico até a África. Peguei o moleque e, primeiro, o encostei na parede. Em seguida, abri a carteira, arranquei mais mil cruzados e disse:

- Vai, André, vai, some daqui com esses inomináveis símios, desgraçados gorilas assassinos! Depois, pelo amor de Deus, me acha o tal vendedor. E traz, nem que tenha dobrado de preço, o jacaré. Vou preserva-lo, até o fim das férias, embaixo da minha cama. Para que nunca mais entre um macaco nesta casa. Se entrar, dou para o crocodilo almoçar!