Publicado 19 de Setembro de 2020 - 5h30

Nas vésperas da tragédia política brasileira que resultou no suicídio do presidente Getúlio Vargas, ocorrido no dia 24 de agosto de 1954, precisamente, no domingo do dia 22, o Guarani Futebol Clube enfrentava a Associação Atlética Ponte Preta no estádio Brinco de Ouro da Princesa, em partida pela segunda rodada do primeiro turno do Campeonato Paulista daquele ano. A Macaca, por pontos perdidos e ganhos, estava na liderança da tabela, ao lado do Corinthians Paulista, Palmeiras, Juventus e Portuguesa de Esportes. O Bugre, por sua vez, por pontos perdidos e ganhos, ocupava o último lugar da tabela, em companhia do Ipiranga, Linense, São Bento e XV de Jaú.

A movimentação esportiva em Campinas, em torno desse Dérbi, foi intensa. Os jornais e as rádios da cidade e das cidades vizinhas motivaram a população e, principalmente, os torcedores bugrinos e pontepretanos. Daí a renda significativa de CR$ 127.480,00 (cento vinte e sete mil e quatrocentos e oitenta cruzeiros), para um público de 11 mil espectadores, aproximadamente.

Os jogadores bugrinos concentraram-se nos alojamentos do Estádio Brinco de Ouro. Os atletas alvinegros concentraram-se, por sua vez, nas dependências do Estádio Moisés Lucarelli. Dada a importância da partida, a Federação Paulista de Futebol escolheu o juiz Antônio Muzitano, um dos melhores árbitros do futebol brasileiro, na época.

Para manter a sua então invencibilidade no estádio bugrino, a Ponte Preta, por meio do seu técnico Moacir de Moraes, mandou ao gramado o seguinte time: Andu; Bruninho e Waldir; Lola, Pitico e Carlinhos; Noca, Baltazar, Nininho, Bibe e Jansem. O Guarani foi escalado pelo seu técnico Conrado Ross, com os seguintes jogadores: Paulo; Herbert e Manduco; James, Clóvis e Saraiva; Dido, Renato, Augusto, Piolim e Osmar.

O estádio cheio quase veio abaixo, quando as duas vibrantes torcidas ovacionaram ruidosamente a entrada dos times. A partida foi iniciada em alta velocidade. Todos os jogadores, em deslocamentos constantes, corriam procurando, desde logo, a abertura da contagem, uma vez que, num dérbi, geralmente quem marca o gol primeiro tem a melhor chance de vencer o jogo.

No primeiro tempo, porém, as defesas conseguiram deter os atacantes. No final dessa etapa, destacou-se o lendário Bibe, um dos melhores meio-campistas aparecidos no futebol de Campinas e de São Paulo. Ele não só defendia e protegia a sua defesa, como também articulava, com maestria, o seu meio campo, com lançamentos magistrais, colocando os seus atacantes em condições de marcar. Ele, também, dentro da área adversária tornava-se um atacante perigoso, de chute potente e certeiro.

Quase no final do primeiro tempo, Bibe recebeu a bola de Lola, tabelou com Noca e, recebendo-a de volta, passou-a ao Nininho, que marcou o primeiro gol.

No segundo tempo, o Guarani, até aos 24 minutos, encurralou a Ponte, mas os seus atacantes não conseguiram converter em gols essa superioridade.

Todavia, os 21 minutos finais foram da Ponte. Lola foi expulso injustamente pelo árbitro por jogo violento e, por incrível que pareça, isso deu mais motivação e garra aos jogadores da Macaca.

A Ponte dominou o Guarani, encurralando-o. Nininho marcou o segundo gol, Baltazar o terceiro e Noca, o quarto gol, liquidando de vez a partida. Ponte 4, Guarani 0!

Nessa época saudosa, Noca era considerado o Garrincha do futebol de Campinas e de São Paulo. Ponteiro direito, exímio driblador, habilidoso de técnica refinada. Inconformado com a expulsão de Lola, sem reclamar ao juiz, Noca driblou várias vezes o Saraiva, lateral esquerdo violento e de forte marcação, levando-o ao ridículo, no momento em que o atacante pontepretano sentou-se na bola! A torcida da Ponte foi ao delírio!

Essa cena hilária gerou entre os torcedores uma briga homérica, que começou no Estádio do Guarani e só foi controlada pela polícia no Largo do Rosário. E, até hoje, os antigos torcedores pontepretanos se lembram saudosos desse dérbi. A Ponte Preta não só manteve, até então, a escrita de não perder no Brinco de Ouro da Princesa, como também Noca gravou, na retina dos torcedores da Macaca, aquela cena antológica na história do futebol de Campinas. Foi o Dérbi do Noca!