Publicado 11 de Setembro de 2020 - 19h05

Antônio Costa Santos, o Toninho, arquiteto e urbanista, prefeito de Campinas há 19 anos, foi homenageado ontem, na Avenida Mackenzie, próximo ao shopping Iguatemi, local do assassinato que chocou a cidade e o País, no dia 10 de setembro de 2001. Um grupo de 100 pessoas esteve presente na cerimônia, e nenhuma delas tinha resposta para a antiga pergunta: “Quem Matou Toninho?”.

Muitos fixaram seus olhares para a escultura no local, que mostra Toninho com uma pipa ao lado de uma criança. Essa pipa se tornou símbolo de sua campanha a prefeito no final de 2000. A pipa foi confeccionada por uma criança, e Toninho a empinou do alto do prédio do Palácio dos Jequitibás junto com o menino que a confeccionou para comemorar a vitória em janeiro de 2001.

Izalene Tiene era vice-prefeita na época e assumiu após o assassinato. Presente no evento de ontem, afirmou que os projetos de Toninho devem continuar. “Não se perderam os sonhos dele de ter uma cidade mais humana, valorizando a história e a memória. Toninho pensava em uma cidade inclusiva usando a memória e o passado como ponte para o futuro. Precisamos manter este sonho dele vivo”, afirmou.

Toninho ocupou o cargo por oito meses e dez dias, em 2001. Mesmo assim, muitos de seus projetos de desenvolvimento e de inclusão social continuam vivos. Alguns planos urbanísticos foram colocados em prática, como a restauração do complexo ferroviário na região Central de Campinas; a Estação Cultura; e de espaços públicos em prédios restaurados para atendimento social e cultural e que ainda não foram incorporados na sua totalidade.

Campinas tem também espaços para inclusão social idealizados por ele, como o Centro de Educação Profissional de Campinas (Ceprocamp), que oferece cursos profissionalizantes gratuitos a pessoas de baixa renda. Em poucos meses, Toninho deu voz a lutas que sempre estiveram presentes em sua vida, como contra o preconceito racial; violência às mulheres e pela inclusão das pessoas pobres e vulneráveis.

Outros projetos de Toninho ainda esperam por ações do Poder Público, como a criação de museus e teatros no complexo ferroviário. Toninho tinha um olhar para o futuro. Sua visão de urbanista vislumbrava as pessoas como prioridade, sempre com o foco na igualdade social, na cultura e na história. A vida política e de cidadão foi pautada pela defesa da coisa pública e da dignidade. Toninho utilizou seu conhecimento para urbanizar favelas e proteger o patrimônio histórico.

Política

Toninho foi eleito vice-prefeito de Campinas em 1989, mas pediu desligamento por questões éticas um ano depois. Em 1990, enquanto era vice-prefeito e secretário de Obras, Toninho denunciou esquemas de corrupção envolvendo empreiteiras. Depois de muitos anos, a Justiça confirmou as denúncias de corrupção e o poder instituído dessas empresas no Brasil. Na ocasião, Toninho não conseguiu comprovar as denúncias e pediu sua demissão da secretaria de Obras.

Fora do governo, entrou com Ações Populares na Justiça e fez denúncias ao Ministério Público contra políticos e grandes empreiteiras que eram, na época, responsáveis por obras gigantescas em Campinas. Decidiu ser candidato a prefeito e elegeu-se em 2001. Em poucos meses, intensificou sua luta contra desvios dos cofres públicos e especuladores imobiliários. O preço foi alto. Toninho foi assassinado no dia 10 de setembro de 2001. Nada foi roubado dele, apenas desapareceu do carro que dirigia uma pasta que continha documentos, ainda não esclarecidos. Há 19 anos, a família e os amigos lutam por investigações que apurem o crime, considerado como sendo de cunho político. Nada mudou. Ainda não se sabe quem matou Toninho.

Investigação teve algumas reviravoltas ao longo dos anos

Toninho foi assassinado na Avenida Mackenzie, próximo ao Shopping Iguatemi, no dia 10 de setembro de 2001, por volta das 22h. Ele foi alvejado por uma pistola 9 milímetros. Na noite do assassinato, Toninho foi a um ato solene do Movimento Negro, no Salão Vermelho da Prefeitura, quando assinou seu último decreto, oficializando o dia 20 de novembro como feriado do Dia da Consciência Negra, dedicado a Zumbi dos Palmares.

Quando foi baleado, o ex-prefeito voltava para casa dirigindo sozinho um Fiat Pálio, após uma rápida passagem pelo shopping. A Polícia Civil sustentou a versão de que o prefeito foi assassinado porque seu carro atrapalhou a fuga da quadrilha do traficante e sequestrador Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho.

Andinho chegou a ser acusado pelo crime. Os disparos teriam sido feitos por Anderson José Bastos, conhecido como "Anjo" ou "Puff", que estava dentro de um Vectra, na companhia de Andinho, Valmir Conti e Valdecir de Souza. Três deles foram mortos em duas operações policiais em 2003, em Caraguatatuba.

Andinho, o único sobrevivente, foi denunciado por homicídio qualificado e tentativa de latrocínio. A Justiça, porém, entendeu que não havia indícios que o incriminassem e determinou que a Polícia Civil retomasse as investigações em 2011. E nada foi esclarecido até os dias atuais. A investigação continua estagnada.

A família acredita em crime político. A viúva de Toninho, a psicóloga Roseana Garcia, chegou a pedir que a Polícia Federal investigasse o caso, o que nunca ocorreu. Ela não tem perspectivas de reabertura de investigação do crime. Ontem, nas redes sociais, Roseana postou: “Eu ainda não tenho nenhuma resposta sobre o que realmente aconteceu, naquele horrível 10 de setembro de 2001. Mas, tenho algumas certezas: o crime foi político, você foi assassinado por ser o prefeito de Campinas e contrariar muitos interesses escusos da cidade.” (GR/AAN)