Publicado 20 de Setembro de 2020 - 14h20

Por Jorge Alves de Lima

Monumento túmulo de Carlos Gomes na Campinas antiga

Reproduções/Coleção de Jorge Alves de Lima

Monumento túmulo de Carlos Gomes na Campinas antiga

Deus traça os fios misteriosos da existência humana, pintando na tela de nossos destinos pontos simultâneos, não obedecendo a espaço e tempo. Exemplo marcante dessa constatação da vontade divina é a coincidência de o dia 16 de setembro de 2020 cair numa quarta-feira, o mesmo dia da semana em que caiu o dia 16 de setembro de 1896, quando faleceu Carlos Gomes, em Belém do Pará. 

Nos dias antecedentes a esse evento letal na capital paraense, pairava um clima tenso, angustiado de preocupação a respeito do grave estado de saúde do maestro campinense. No oitavo dia do mês de setembro, Belém vivia esses momentos, diante do agravamento da ferida de câncer na língua de Carlos Gomes. “Delirando, ele invocava as saudades dos filhos Carlos André e Ítala. Havia momentos de repentina e fugaz lucidez, e ele reclamava pela presença do seu irmão José Pedro de Santana Gomes: “ – Ele não chega, não chega?” As lágrimas que ele derramava eram de saudades”, escreveu Jolumá Brito (Carlos Gomes, edição Saraiva).

A população de Belém, representada por todas as classes sociais, desde o rico ao pobre, profissionais liberais e, principalmente, os operários, que nutriam uma grande veneração pelo compositor campinense, oravam a Deus pela sua saúde, ou, pelo menos, para minorar o seu sofrimento.

Lauro Sodré, governador do Pará, alugou, na rua Quintino Bocaiúva, uma bela residência para Carlos Gomes viver seus últimos dias. “A casa possuía uma larga varanda, tendo três portas e janelas que batiam para a rua Tiradentes. Em frente à porta do primeiro quarto do corredor, via-se a rede onde agonizava Carlos Gomes e, por sobre ela, um dossel de finíssima cambraia branca...

Ao centro da sala, estava um magnífico piano de cauda, em que Carlos Gomes, ainda não havia um mês, com seu amigo Clemente Ferreira, maestro e compositor, tocavam a quatro mãos trechos de sua óperas.” (jornais paraenses A República e Folha do Norte).

Além de Lauro Sodré, o outro amigo do Tonico de Campinas, era Antônio José de Lemos, jornalista e proprietário do jornal Província do Pará. Ele escolheu o repórter Licínio Silva para acompanhar a agonia e os últimos momentos de Carlos Gomes, um trabalho jornalístico de uma importância enorme – testemunho fidedigno e presencial da agonia do compositor campinense. Redigido no dia, hora a hora, junto ao seu leito de dor, revela detalhes quase fotográficos. 

Matéria do jornal Província do Pará 

“Desde o dia 9, tem-se agravado muito o estado do maestro. Como vê, encontra-se indiferente por todos e por tudo, e mal reconhece as pessoas que o cercam. Nessas circunstâncias, resolvemos instalar à cabeceira de Carlos Gomes nosso permanente de reportagem, dirigido por um dos nossos colegas a quem o maestro consagra verdadeira estima e que o tem acompanhado em todos os períodos de sua enfermidade.”

São deles as seguintes informações:

“Dia 16 (pela tarde), prevendo inevitável e para breve o desfecho final, havíamos combinado uma chave telefônica entre os escritórios da nossa redação da Província do Pará e o nosso serviço permanente de reportagem junto a Carlos Gomes, correspondendo a cada nome uma fase da moléstia. Às 13h46, pelo telefone repetiam-nos a palavra Lemos que, no nosso código, indicava a fase da agonia.” O jornal colocou uma tabuleta na porta avisando a população.

A morte de Carlos Gomes

“10 horas e 25 minutos (22h25). Nesse horário, da noite do dia 16 de setembro de 1896, a redação da Província do Pará, apreensiva, recebeu o telefonema de Antônio Lemos, que pronunciou a última palavra da senha combinada: “Guarani”, palavra fatal que se traduzia: “Acaba de falecer Carlos Gomes”. Imediatamente a redação da Província do Pará expediu o seguinte boletim: “Expirou o eminente maestro. Cerrou-lhe os olhos o sr. dr. Lauro Sodré”.

“A agonia foi lenta, porém calma. A morte de Carlos Gomes foi completamente serena... A expressão do rosto é serena”, relatou o dr. Miguel Pernambuco.

Códigos transmitiam a real situação clínica do maestro

“Foi curiosa a forma do código estabelecido entre o repórter e a redação do jornal da Província do Pará, para transmitir o noticiário da evolução do quadro clínico do maestro campinense. O código, ou melhor, as chaves telefônicas entre a reportagem e a redação do jornal foram as seguintes: a palavra “Lemos” significava a fase da agonia; a palavra “Chermont”, a continuidade da agonia; a palavra “Peri” significava que Carlos Gomes estava nos seus últimos momentos; e, finalmente, a palavra “Guarani” se traduzia por esta outra: “Morte””, detalha o biógrafo de Carlos Gomes, Jorge Alves de Lima.

Ele conta que em suas viagens a Belém, ficou sabendo que no meio da tarde do dia 16 de setembro, a consellho médico, Carlos Gomes fora retirado de sua cama e levado para uma rede onde morreu. “A imagem mais conhecida é a de que ele havia falecido em uma cama, em cujos pés e arredores estavam espalhadas partituras de suas obras primas. A célebre e clássica foto foi adredemente preparada para que os fotógrafos Felipe Fidanza e Antônio de Oliveira o retratassem em seu leito final.” 

Lauro Sodré inicia as providências na madrugada 

O Palácio do Governo do Estado do Pará era dotado de forte esquema de comunicação telegráfica com todo o Brasil. A primeira medida de Lauro Sodré foi tomada às 2h40 da madrugada do dia 17 de setembro, enviando telegrama a José Pedro de Santana Gomes comunicando-lhe o falecimento do irmão Carlos Gomes. O teor do telegrama foi o seguinte: “Santana Gomes- Campinas. Teve, infelizmente, seu triste desenlace fatal a última crise de vosso prezado irmão. Enlutase a alma do povo paraense diante do infausto sucesso; recebei testemunho, simpatias inspiradas na vossa dor.” A seguir, Lauro Sodré telegrafou ao dr. Prudente de Moraes, Presidente da República, ao dr. Campos Salles, Governador de São Paulo; aos presidentes do Senado e da Câmara Federal; aos governadores de todos os Estados Brasileiros.

Finalmente, o governador paraense preocupou-se com Carlos André e Ítala Gomes, residentes em Milão, e expediu ao consulado brasileiro, creditado naquela cidade, a incumbência de comunicarlhes o falecimento do pai. Fêlo pela seguinte forma: “Peço o obséquio de dar ciência do falecimento do maestro Carlos Gomes aos filhos, cientificando-lhes expressões de minhas sinceras condolências.”

Depois de expedir os telegramas, Lauro Sodré autorizou que Felipe Fidanza e Antônio de Oliveira – os dois melhores fotógrafos de Belém, fotografassem o corpo de Carlos Gomes, desde a sua retirada na rede, onde faleceu, até a sua colocação na cama. A seguir, o corpo foi colocado na mesa da sala de jantar, para o seu embalsamento, efetuado pelos médicos Numa Pinto e Alfredo Almeida Pernambuco. O procedimento do embalsamento permitiu que o corpo de Carlos Gomes resistisse à decomposição, até seu enterramento em Campinas, um mês e quinze dias após a morte. Santana Gomes recebe a notícia no meio da madrugada Quase 3h do dia 17 de setembro, José Pedro de Santana Gomes dormia agitadamente, quando ouviu batidas na porta de sua residência e os gritos de alguém em aflição: era o carteiro da agência telegráfica trazendo-lhe um telegrama. Santana Gomes sentiu, naquele instante, num relance, a gravidade do teor do telegrama e muito mais ainda quando viu que era do governador Lauro Sodré. Com as mãos trêmulas, lágrimas rolando nas suas faces, leu: “teve infelizmente, seu triste desenlace fatal, a última crise de vosso prezado irmão”.  Santana Gomes confessou a amigos, tempos depois, que, abraçado à esposa e filhos, chorou lágrimas copiosas.

Pela manhã do dia 17, ele procurou Antônio Duarte de Moraes Sarmento, diretor chefe do Diário de Campinas e as autoridades municipais, levando-lhes a infausta notícia. O jornalista, naquela altura do dia, já estava sabendo, e o noticiário atinente só sairia no dia seguinte – 18 de setembro – sexta feira.

Repercussão da notícia da morte de Carlos Gomes

Na manhã de sexta-feira, 18 de setembro, os moradores de Campinas formaram filas na redação do Diário de Campinas para adquirir os exemplares do jornal e ter detalhes da morte de Carlos Gomes. Em Campinas todos os templos religiosos católicos e protestantes uniram-se em homenagem a Carlos Gomes. Ao longo do dia 17 de setembro, foram celebradas quase de hora em hora, missas e cultos na Igreja Presbiteriana, orando pelo maestro. De 30 em 30 minutos, os campineiros ouviram todos os sinos dobrarem a finados, chorando a morte de Carlos Gomes e, na medida em que o dia avançava, eles ocupavam ruas e praças públicas, em cenas de desespero e dor. A emoção era geral. A residência de Santana Gomes, irmão do compositor imortal, recebia inúmeras visitas, chegando mesmo a formarem filas.

Notícia do Diário de Campinas sobre a morte do maestro Carlos Gomes

A lira que desprendeu as harmonias do Salvador Rosa e do Guarani, da Fosca, e Maria Tudor, do Schiavo e do Condor e do Colombo, está emudecida. Não a dedilha mais o gênio Carlos Gomes, que desapareceu do cenário da vida, nuns arrancos de iluminado, nos arroubos de genial inspiração triste, mais triste ainda que a lira que cascateou torrentes de harmonia; é a alma do nosso povo, tanta vez sentimentalizada pelos cantos do grande morto. E de joelhos hoje, como mãe carinhosa diante do seu cadáver ainda quente, não acreditando que tenha filho tão extremado num egoísmo santo de um coração amantíssimo. Eu também não creio em sua morte. Carlos Gomes! Sempre que meus ouvidos sentirem as vibrações do teu gênio, eu direi: Carlos Gomes vive; que o gênio é imortal”,escreveu o jornalista Rodolfo Noronha na edição do dia 18 de setembro.

Escrito por:

Jorge Alves de Lima