Publicado 13 de Setembro de 2020 - 10h39

Por Henrique Hein

No alto, Ipanema invadida por banhistas; o coordenador do Centro de Contigência da Covid-19

Wilton Junior/Estadão Conteúdo

No alto, Ipanema invadida por banhistas; o coordenador do Centro de Contigência da Covid-19

O último fim de semana prolongado, que emendou com o feriado do Dia da Independência (7 de setembro), foi marcado pela aglomeração de pessoas em diversas praias brasileiras. No Estado de São Paulo, mesmo com as restrições e limitações impostas pelas prefeituras, muita gente ignorou a quarentena e desceu as serras paulistas em busca de um descanso em meio à pandemia do novo coronavírus. A situação, além de preocupante, acende um alerta para os próximos feriados prolongados que ainda estão por vir neste ano, como os dias de: Nossa Senhora Aparecida (12 de outubro), Finados (2 de novembro) e Consciência Negra (20 de novembro).

Casados há mais de uma década, o comerciante R.P., de 46 anos, e a nutricionista F.N., de 40, foram para São Sebastião (SP) no sábado passado em busca de diversão com seus dois filhos pequenos. Moradores do Centro de Campinas, eles pediram para não serem identificados pela reportagem, mas contaram que a cidade estava lotada de turistas. “A gente viu que o comércio, os restaurantes e até as academias estavam reabrindo. Então, na hora, não vimos problema em viajar”, disse R.P. “A nossa ideia era curtir as tardes de sol, mas tinha tanta gente na praia que ficamos com receio. Só fomos quando já estava querendo escurecer e era um horário um pouco mais tranquilo, mas ainda sim tinha bastante gente”, frisou F.N.

Para Renata Moreira, coordenadora de biomedicina da Faculdade Anhanguera, o atual cenário da Covid-19 no Brasil ainda não permite descuidos como o que aconteceu no último feriado. "A pandemia não acabou. A gente está tendo um achatamento da curva de contaminações, mas alguns estados ainda seguem em alerta e com números elevados da doença. Isso ainda requer muita atenção”, explicou ela.

“Quando a gente fala em aglomeração, seja numa praia ou em qualquer outro lugar, estamos falando de um ponto focal para a disseminação da doença. A comunidade tem que ter consciência de que nós ainda estamos vivenciando um momento muito delicado do sistema de saúde a nível mundial”, ressaltou.

Apesar de pedir para que as pessoas evitem se expor ao vírus de maneira desnecessária, a especialista diz ter certeza que muita gente ainda vai voltar para as praias assim que tiver uma nova oportunidade. Para essas pessoas, Renata orienta que, ao menos, sigam as orientações básicas de prevenção, como: evitar frequentar as praias que costumam ser mais lotadas, manter um distanciamento mínimo dos demais banhistas e deixar as mãos sempre muito bem higienizadas. “São pontos focais para que a gente minimize a possibilidade de contaminação”, concluiu.

Cuidado ao voltar

Por sua vez, o coordenador do Centro de Contingência da Covid-19 do Estado de São Paulo, José Medina, lembra que as pessoas que estiveram em locais com grande aglomeração, como nas praias no último feriado, precisam adotar ao menos dois cuidados na hora de retornar para casa. “É preciso cuidado com a transmissão para familiares, principalmente se no domicílio existirem pessoas idosas, diabéticos, portadores de doenças cardiovasculares ou outra comorbidade qualquer”, disse.

Segundo ele, é importante que ao voltar de uma viagem ou de um local de aglomeração, a pessoa use máscara, mesmo estando em casa. Medina ainda recomenda que esse indivíduo pratique o que chamou de “distanciamento responsável” para evitar que ele possa vir a contaminar pessoas mais vulneráveis, já que os sintomas do novo coronavírus só começam a aparecer quatro ou cinco dias depois da infecção. “Um dos sintomas mais claros é a perda do olfato”, lembrou. “Se a pessoa começar a se sentir assim, procure uma unidade básica de saúde, faça o teste e siga as orientações de isolamento preconizadas pelo médico”, advertiu ele. 

Pessoas vivem um “falso real”, diz psicóloga

Na avaliação da psicóloga Paula Montenegro, o longo período de isolamento social e reabertura gradual de alguns setores interferiram na maneira como as pessoas estão ante a pandemia. “A gente ainda tem um número alto de contágio e de pessoas morrendo todos os dias, mas o que acontece é que agora as coisas estão parecendo um pouco mais normais na cabeça de muitas pessoas. Tem muita gente que está vendo o comércio e os bares voltando a abrir e alguns amigos voltando a trabalhar, e isso dá ideia de que tudo está bem, quando na verdade nós ainda estamos numa pandemia”, explica ela.

Ainda de acordo com Paula, outro fator que explica a falta de bom senso de algumas pessoas é o fato de que ainda há muita gente que não foi afetada seriamente pela doença. “Nós já temos mais de 120 mil mortes, mas, se ninguém da família dessa pessoa foi infectada ou morreu, é natural que ela comesse a negar o cenário da pandemia e passe a acreditar numa ilusão de que tudo está seguro”, destaca a especialista. “Às vezes, ela até conhece alguém que se infectou, mas como não foi nada grave, ela passa a acreditar que não é nada demais”, ressaltou. 

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Henrique Hein