Publicado 24 de Setembro de 2020 - 7h53

Zeza Amaral

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Zeza Amaral

Vejo na tevê milhares de pessoas mascaradas entrando e saindo das lojas centrais. Não importa a cidade, se aqui, ali ou acolá. O que elas vão comprar? Sei lá. Há seis meses uso as minhas quatro bermudas e uma dúzia de camisetas. Além das cuecas diárias, é claro. Um item, aliás, que ando achando supérfluo; e pensando em quem inventou tal indumentária. E não vou perder tempo em procurar na Internet. E as minhas doze cuecas sustentam uma tradição de família. E isso é o mínimo de tradição que devo preservar em nome da família.

A gerente do meu banco ligou dizendo que posso utilizar até 90 mil reais. Vou viajar para que país? Vou comprar um terno novo para ir em qual casamento? Ando de chinelas pela casa e tenho dois pares de tênis para caminhar pela quadra do meu prédio. E o pessoal se aglomera nas ruas atrás de alguma coisa que não consigo entender. E o arroz está faltando no mercado e ninguém do governo aconselha os cidadãos a trocar o arroz por milho cozido, batata, cará, e, é claro, um feijão com farinha de milho. E tudo muito bem acompanhado por uma salada de agrião, escarola, alface, rúcula – e melhor acompanhada por cenoura ralada. E um empresário qualquer disse que o brasileiro deveria trocar o arroz por macarrão. E o trigo está custando os olhos da cara, como bem sabe o raro leitor; e o tango argentino é bem melhor que o blues, como já cantou o saudoso Belchior. E o trigo argentino virou uma raridade para as moendas brasileiras. Assim como o tango e os discos de Carlos Gardel.

Sigo a vida com salada, purê de batata com cará, arroz integral, peixe, frango ou bolo de carne, que eu mesmo faço. Troquei a bateria da balança e descobri que emagreci cinco quilos nos últimos seis meses de pandemia. E as velhas bermudas estão mais confortáveis na minha cintura. Só estou precisando de mais água para regular a hidratação e assim controlar a minha hipertensão – embora o preço dos remédios provoca hipotensão no meu bolso. Mas é o jogo sendo jogado e sigo em frente; e sempre fazendo uma oração ao cientista que descobriu a olmesartana medoxomila; e também aos que descobriram a rusolvastatina, a eduxabana, o cloridato de nebivolot, o hemitartarato e o bromazepam. E abençoados sejam os químicos da Sanasa que nos oferecem a melhor água potável do mundo – a qual bebo direto de qualquer torneira. E bendito seja o Chef Teo que comanda a melhor cozinha da cidade – e da sua mesa só estou ausente por conta de um isolamento sanitário que não pedi, mas, é claro, devo respeitar para seguir com saúde e voltar à sua simpática casa.

Por enquanto sigo com o meu cardápio cardiológico e tratando de me cuidar para não incomodar enfermeiros e médicos. E bem faria o cidadão que sai de casa para comprar uma idiota camisa, cueca, camiseta, ou sei lá mais o quê – e a praia não vai sair de lá. Tampouco a Treze de Maio e os shoppings da vida. O engraxate Carlito, que tem cadeira cativa ao lado da Banca do Alemão, na praça Guilherme de Almeida, está ausente. E ando precisado de dar um lustre nas prosas que temos desde os setenta. Mas tudo tem o seu tempo e assim seguimos com a paciência que bem aprendemos ao longo de nossas vidas; sapatos se vão e outros vêm, mas ainda estamos com saúde para voltar ao abraço de nossas famílias. No momento, é isso o que importa. E nos próximos, também.

Estamos como as nossas mães depois de parir um filho. São tempos de resguardo. A humanidade está em tempo de resguardo. O nosso planeta está em resguardo. E os bons homens da ciência aconselham um tempo de resguardo para que possamos superar a pandemia do covid-19 e assim me resguardo e sigo rezando à Senhora das Dores, Senhora da Natureza, a Mãe que me deu o primeiro terço e as primeiras águas santas na minha primeira comunhão, hóstia que até hoje carrego para suportar a provação de um triste resguardo. É isso.

Bom dia.

 

Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico