Publicado 25 de Setembro de 2020 - 7h01

É natural pretender uma “vida boa”. Mas o que significa “vida boa”? Alguns se contentam com uma boa casa, comida à vontade, trabalho para o sustento próprio e da família. Outros não se contentam com isso e sofisticam suas aspirações. Sabe-se que as necessidades são infindas. Mal se satisfaz uma e surge outra no lugar. A evidenciar que a natureza humana é insatisfeita por vocação.

Atender aos desejos materiais não supre a aspiração a algo intangível. Por que pessoas que aparentemente já conseguiram todo o possível nesse aspecto, continuam tristes e angustiadas? O que justifica o crescente número dos deprimidos, estressados, desalentados, desesperados e suicidas?

Para aquele que foi criado ou veio a adquirir uma crença, há um adiamento na insatisfação. Projeta-se a colheita do que se investiu em “boas ações” nesta peregrinação, no outro plano a que nosso comportamento nos conduzir. Mas há número considerável dos que, agnósticos ou ateus, não são socorridos pela fé. O que justifica para estes, continuarem a praticar o bem, a procurarem a perfeição, a não se entregarem aos vícios e à maldade?

Um dos filósofos contemporâneos mais sedutores é Luc Ferry, que foi Ministro da Educação da França entre 2002 e 2004 e que escreveu inúmeros livros, todos eles traduzidos no Brasil. Por sinal, é frequente sua visita ao nosso país, inclusive para participar do projeto “Fronteiras do Pensamento”.

Um de seus livros é exatamente focado nesse tema: “O que é uma vida bem sucedida?”. Mas não é dessa obra que extraio material para esta reflexão. É de outro instigante livro, a sua autobiografia, a partir de entrevistas com Alexandra Laignel-Lavastine, outra intelectual francesa. Chama-se “O anticonformista”. Luc Ferry, uma autobiografia intelectual. Para o Le Monde, é a única biografia cujo assunto não é o biografado, mas a sua trajetória no pensamento filosófico e político da contemporaneidade.

Para Luc Ferry, os três critérios da vida boa são: a aceitação da finitude, a liberação dos dois males que afligem o humano, ou seja, o passado e o futuro e a reconciliação com o presente.

Aceitar a finitude é encarar a morte como algo natural e inevitável. A busca da imortalidade é uma falácia conducente à frustração. Só os sábios conseguem vencer o medo e compreender a mensagem epicurista: enquanto você é vivo, a morte não existe; quando ela chega, você é que não existe mais.

O segundo critério faz com que os humanos ponderem o quanto tempo é desperdiçado com questões do passado ou do futuro. São dois males que atormentam as criaturas. O passado faz lembrar as paixões já mortas, enfrentar a saudade com amargura e reacender a procissão de arrependimentos, remorsos, culpas e frustrações. O futuro é enganador. Faz cintilar a esperança de uma vida muito melhor, mas sempre adiada. O horizonte do futuro é inalcançável.

Foi Sêneca o estoico a sintetizar a inconveniência do excessivo apego ao futuro: “de tanto viver no passado e no futuro, deixamos de viver”. E o tempo é algo a merecer atenção à luz do que nos legou Santo Agostinho, em suas “Confissões”.

Na verdade, o passado não volta. O futuro não chegou e pode nunca chegar. Só dispomos do presente. Algo fluido, insustentável, porque de imediato se torna também passado.

Todavia, o natural no ser humano é reconciliar-se com o presente. O presente é o cosmo eterno, um fragmento de eternidade. Viver com intensidade aquilo que nos foi oferecido de forma gratuita: a dádiva de respirar, de enxergar, de ouvir, de andar, de se maravilhar com os mistérios da existência.

Você acha isso muito difícil?

Renato Nalini é desembargador, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove, palestrante e conferencista