Publicado 25 de Setembro de 2020 - 7h15

Luiz Roberto da Costa Júnior, mestre em ciência política e servidor público na Cidade Judiciária, em Campinas

Divulgação

Luiz Roberto da Costa Júnior, mestre em ciência política e servidor público na Cidade Judiciária, em Campinas

Odorico Paraguaçu, sentado na cadeira de prefeito, segurava um charuto na mão direita e um isqueiro na mão esquerda. Estava pronto para acendê-lo no silêncio da sala com a bandeira de Sucupira, ao seu lado, e o quadro com seu retrato, acima de sua cabeça, ornamentando o ambiente. De repente, seu secretário particular, com óculos quadrados fundo de garrafa, irrompeu adentro, correndo e gritou:

- Oh, coronel! O senhor viu a manchete da Trombeta?

- O que é isso, seu Dirceu? Assim, o senhor me mata do coração! Até deixei cair o charuto e o isqueiro na mesa. Do que essa Trombeta marronzista, calunienta, subversiventa e maucaratista me acusou agora? Ser o responsável pelo lobo-guará na nota de 200 reais? Pelos uivos de lobo, aqui na cidade, quando a nota entrou em circulação na lua cheia, quando começou o mês de setembro? Que agora ninguém mais quer o dinheiro, com medo de assombração? Por permitir que o Zeca Diabo volte à cidade?

- Oh, coronel! Imagina, ninguém acusou o senhor de nada disso, não senhor. É que a manchete do jornal está falando do terceiro pedido de impeachment contra o senhor. Abrir as praias, em meio à pandemia, colocando em risco a saúde pública.

- Isso é uma ideia desapretechada de sensatismo. Uma escandalice e uma safadice dessa imprensa lida, olhada e escutada. Orquestrada pela oposição radicalista dessa esquerda badernista, desaforista e subversiventa. Diversionismo desgastativo contra a minha candidatura à reeleição.

- Mas coronel, aquele remédio não funcionou e não se pode fazer automedicação sem acompanhamento médico. As pessoas passaram mal e foram de ambulância para a capital e a oposição pediu seu segundo impeachment. A covid-19 é perigosa. Tem que fazer o isolamento social.

- Falastrice estrangeirada. Após a liberação do dinheiro desse emergenciamento, tive uma confabulância sigilenta. Um coloquiamento sigiloso com todos os acautelatórios para obter mais desse mesmo remédio indicado pelo presidente Donald Trump. Esse providenciamento é decisório para minha vitória. Sou neto de Firmino Paraguaçu, que enfrentou a gripe espanhola, em 1918, e filho de Euleutério Paraguaçu que debelou a gripe de Hong Kong, em 1968.

O prefeito está de pé e segura seu charuto ainda apagado. Traja camisa e calça branca com suspensório preto. O paletó está pendurado na cadeira, quando de repente toca o telefone. Trim. Trim. Trim.

- Oh, coronel. É o governador para o senhor.

- Me ajude aqui a colocar o paletó para atender o telefone, seu Dirceu.

- Só um momento, o prefeito já vai atender.

- Boa tarde, excelência! Como vai a excelentíssima? Sim, claro! Tudo em ordem por aqui! O que devo a honra de sua ligação? O que? O carregamento foi retido nos Estados Unidos. Que ingratitude! O que? As praias foram fechadas em todo o litoral do Estado. A delegada de polícia está lá com barreira para impedir a entrada de turista. Sim, excelência. Muito grato, excelência. Passar bem.

- O que aconteceu, coronel?

- Vamos deixar os pratasmente e pensar prafentemente. Essa fase vermelhista está causando muito problema. Vamos botar de lado os entretanto e partir pros finalmente. Precisamos avançar para a fase amarelista e verdista. Tive um avistamento deverasmente importante com a presidente da Câmara de Vereadores. A Dorotéa e as outras cajazeiras são donzelas praticantes e juramentadas.

Marchando juntas no mesmo passo em defesa da família sucupirana. Participaram, hoje de manhã, de uma manifestação na Praça Rosa Paraguaçu, em frente à Igreja do Senhor do Bonfim. Ah! Aí está Dorotéa...

- Boa tarde, coronel. Estávamos apenas nós três sem máscaras e não apareceu mais ninguém.

- Mas as fotos de divulgação com a igreja ao fundo ajudaram no meu apoiamento?

- Coronel, o problema é que aquele Neco Pedreira da Trombeta enviou a namoradinha dele, aquela Tuca Medrado, com um drone para sobrevoar a cidade e mostrar que a praça estava vazia. Acusaram o senhor de propagar fake news. A cidade está dividida e polarizada. Muitos apoiam o barbudo do dentista Lulu Gouveia contra o senhor. A única coisa em comum, entre os dois candidatos, é a data e hora de nascimento. No mais, pensam o oposto em tudo. Seu Dirceu Borboleta, por gentileza, ligue o rádio porque vai sair o resultado final da eleição. A oposição saiu muito na frente com os votos da cidade e, agora, o senhor depende de um milagre dos votos da zona rural para virar a eleição.

- Rádio Sucupira, a que não erra na mira, transmite neste momento o resultado final da eleição para prefeito. Com a palavra o juiz eleitoral.

- Apurados todos os votos válidos. Houve empate na eleição. Proclamo que não há vencedor no pleito porque não há como desempatar por idade.

- Desligue o rádio, seu Dirceu. Foi o pedido do prefeito.

- O que o senhor vai fazer, agora? Perguntou Dorotéa Cajazeira.

- Ligue imediatamente para aquele nobre causídico na capital. Respondeu o prefeito.

- Oh coronel, aquele que conseguiu minha absolvição por legítima defesa da honra por 4 a 3, na votação do júri? Mas eu fui condenado em segunda instância e podia ser preso!

- Seu Dirceu, o senhor não foi preso porque mudou a jurisprudência. O caso foi parar no Supremo. Lá, o ministro relator se aposentou e, depois, não houve julgamento porque causa da prescrição do caso. Nesse palavrório jurisdiquês complicado, que não entendo muito bem, ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Portanto, o senhor é um homem livre. A gente deve fazer o acatamento do decisório judicialesco. Talqualmente minha situação, onde no ringue da política, o caso de empate como no boxe favorece quem está no poder. Vamos criar uma nova jurisprudência.

- Mas coronel. E o pedido de impeachment por causa do dossiê antioposição? E as gravações no confessionário da igreja?

- Seu Dirceu, vamos pedir nulidade do pecadismo de sua delação premiada. O senhor ficou preso mais de 24 horas, sem audiência de custódia, e sem assistência causídica. O uso das gravações é ilegal. Não houve mandado de busca e apreensão. Eu não sabia de nada e vou mandar apurar. O senhor sofreu um desmemoriamento. Seu cérebro estava esmolecente. Vamos pedir um laudo psiquiátrico para o senhor. Vamos ganhar tempo. Esse impedimento traiçoeiro não pode ser apresentado no novo mandato. Isso é golpe! Eu não admito! Eu sou um democratista juramentado! Essa vitória vai entrar para os anais e menstruais da História.

O prefeito Odorico Paraguaçu sentou-se na cadeira e, finalmente, pegou o isqueiro na mesa e acendeu o charuto.

- Já posso preparar meu discurso de empossamento com a alma lavada e enxaguada: Sucupira, aqui me tens de regresso.

Esta crônica é uma homenagem aos 40 anos da estreia do seriado O Bem Amado (1980/1984), após o enorme sucesso da novela de 1973, baseada na obra de Dias Gomes (1922-1999).

Luiz Roberto da Costa Júnior é mestre em ciência política e servidor público na Cidade Judiciária, em Campinas