Publicado 17 de Setembro de 2020 - 16h21

Zeza Amaral, em o ùltimo Pôr do Sol

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Zeza Amaral, em o ùltimo Pôr do Sol

Tudo é o que parece. Pedra é pedra. Chuva é chuva e doido é doido. E Bolsonaro é Bolsonaro. E é tudo muito simples como um cinzeiro cheio de bitucas, ardendo seu fedor pelo ambiente. Escrevo como as cabritas quando evacuam. Aos pouquinhos, assim como pensam os idiotas políticos.

A Natureza tem o seu caminho e a humanidade é apenas uma ínfima parte de seu interesse cósmico. E isso não tem nada a ver com nossos valores morais e científicos. Somos apenas animais criados por alguma circunstância química e andamos por aí se achando o dono da cocada preta. A Natureza não olha para os homens, mulheres, onça, jacaré, peixes, ararinha azul, sabiá, violeiro de rio abaixo, rio acima, cantador de raiz, breganejo, sambista de morro, poeta maior ou menor. A Natureza é o que ela é. E ela está em tudo que existe à nossa volta, sofá, cama, travesseiro, lençol, nas panelas, nas baratas, nos mosquitos, no câncer, tuberculose, na diarreia, na gripe, no alcoolismo, nas drogas, e que o raro leitor acrescente mais algumas coisas.

Bilhões de anos e o homem só chegou por volta dos últimos duzentos mil anos da Santa Natureza do planeta. Olho o Sol e bem sei que daqui uns bilhões de anos ele vai desaparecer. E com isso tudo o que os homens sonharam vão desaparecer. Tudo tem o seu tempo contado. As efemérides vivem apenas um dia. Nascem, procriam e morrem. E não deixam poesia, música e sequer uma ideia de como enfrentar a finitude da vida. E assim faço um samba para os meus passos de calçada, inventando histórias para seguir em frente, sem necessidade de tamborim, pandeiro – mas que bem sonho com o surdo do saudoso Helder Bitencourt, no treme terra, levando devagar o bloco Nem Sangue Nem Areia. O tempo não pode entender o que é um surdo tocando na cadência da vida. E é por isso tudo que vale a pena viver o tempo que merecemos.

Política é importante e é a base da Democracia. Mas muitos (a maioria) acham que a política é um lixão de interesses imorais. Tais pessoas transferem suas imoralidades aos bons homens da política e assim buscam as benesses de seus interesses; e assim contribuem para o descrédito do primeiro pilar da democracia: o pensar e fazer Política. Tudo é uma sujeira dessa gente que acha que fazer política é a sujeira que carrega na sua própria alma. E assim é o que militantes partidários buscam para referendar seus paupérrimos argumentos. E isso vale para petistas e bolsonaristas. E eles não representam absolutamente nada. Não são nada, apenas grãos de poeira na pequena estrada vida. E não passam disso.

Acabei de ver o violeiro João Arruda acompanhando o Mestre João Bá. Ele ainda de barba negra como as asas de um urubu. João Bá virou saudade e o João Arruda segue a sina da viola. Nenhum sinal aponta o caminho de um violeiro, nem Sol nem Lua, nem os letreiros dos ônibus de rodoviária – e disso sei pois sempre fui andante de muitas rodoviárias brasileiras. E João Arruda é agora um senhor de sua própria canoa de viola e pó de estrada. E é isso o que importa. A ele e a mim.

Os que se danam por seus próprios interesses seguirão os atalhos abertos pelo facão do Diabo. Caminhos curtos. É o que deseja o Tinhoso para receber a alma dos ladrões da Pátria – e assim já me dizia o velho avô Guilherme – e tantas décadas depois confiro o conjurado da justiça natural que pune os ímpios da ética. O bom e raro leitor caminha comigo por aqui por direito adquirido; nem precisa concordar com os capins da minha palavra, e, tão somente soltar os cavalos que estão dentro de seu peito, como já cantou o catalão Amâncio Prada. E santo, e que todo seja o santo dia dos cavalos livres para carregar minhas palavras por aí; e assim me sinto livre para plantar minhas palavras nesta pequena horta de jornal. E nada mais peço e desejo. Apenas manter a cadência da ética. Bom dia.

Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico