Publicado 17 de Setembro de 2020 - 15h59

Silvia Brandalise é fundadora e diretora do Centro Infantil Boldrini

AAN

Silvia Brandalise é fundadora e diretora do Centro Infantil Boldrini

O mês de setembro é internacionalmente dedicado à conscientização do câncer da criança e do adolescente. Em setembro de 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) proclamou sua “Iniciativa Global para o Câncer da Criança”, com o objetivo de se alcançar mundialmente até o ano de 2030, pelo menos 60% de cura para as crianças com câncer. Isso significa dobrar as chances de cura hoje obtidas, principalmente nos países de baixo e de médio nível socioeconômico.

A cada ano, cerca de 300 mil crianças com idades entre 0-19 anos, são diagnosticadas como portadoras de câncer. Embora avanços notáveis tenham sido obtidos nestas três últimas décadas nos países desenvolvidos, chegando-se a níveis de cura de 80% dos casos, essa não é a realidade nos países em desenvolvimento. Nestes últimos, a probabilidade de morte pela doença entre as crianças é quatro vezes maior, comparativamente àquelas do Primeiro Mundo.

Várias são as razões envolvidas nas reduzidas taxas de cura do câncer pediátrico. Entre elas, o atraso no diagnóstico da doença, as elevadas taxas de abandono do tratamento, falta de acesso irrestrito aos medicamentos essenciais contra o câncer e deficiências da estrutura global dos centros cuidadores, em prover num mesmo local todas as estruturas necessárias para um bom e preciso diagnóstico, incluindo o diagnóstico por imagem e anatomopatológico, oferta de leitos para internação e terapia intensiva, cirurgias, radioterapia e equipe multiprofissional especializada, disponível em tempo integral.

Não resta dúvida de que se o médico pediatra não suspeitar do diagnóstico de câncer em seu paciente, este será o maior entrave para o sucesso do tratamento. Nos casos de tumor cerebral, por exemplo, estes atrasos chegam a vários meses após a queixa dos primeiros sintomas apresentados pela criança. Todavia, só se pensa em câncer, quando se conhece o tema.

Lamentavelmente no Brasil, menos de 5% das crianças são registradas em Estudos Clínicos Cooperativos. Na década de 90, a experiência do Grupo Brasileiro de Tratamento da Leucemia na Infância (GBTLI), estudo cooperativo, demonstrou que é possível em nosso País alcançar taxas de 70% de sobrevida a longo prazo, em crianças tratadas conforme protocolos clínicos devidamente monitorados.

Caminhando no aprimoramento dos diagnósticos pelo genoma e pela Biologia Molecular, níveis ascendentes de cura foram alcançados no Centro Infantil Boldrini para a Leucemia Linfoide Aguda da criança (82%). Infelizmente, o Estudo GBTLI LLA-2009 foi abruptamente encerrado em 2017, em virtude da distribuição pelo Ministério da Saúde do medicamento LeugiNase (Beijing Pharma), destituído de eficácia e segurança comprovadas.

Os resultados dos testes realizados com este produto no Brasil e nos EUA, devidamente publicados em revistas científicas de impacto (EBioMedicine e Lancet), chamaram a atenção da Organização Mundial da Saúde sobre este grave assunto das drogas espúrias ou falsas, vendidas aos países pobres e em desenvolvimento.

O Centro Infantil Boldrini foi o único hospital brasileiro que se recusou a utilizar a LeugiNase, passando a importar o medicamento da Europa/EUA para todos os seus pacientes. O aprimoramento/capacitação dos profissionais de saúde, otimização dos recursos públicos, hierarquização das instituições para atendimento aos casos mais complexos, são prerrogativas que nos estimulam a ousar buscar os 60% de cura para os jovens brasileiros com câncer. Mais do que sonhar será necessário carregar a bandeira atual da Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica (2018) onde se lê “Nenhuma Criança deve morrer de Câncer (https://www.who.int/cancer/childhood-cancer/en).

Queremos isto para o nosso Brasil! Não para 2030, mas para bem antes.

Silvia Brandalise é fundadora e diretora do Centro Infantil Boldrini