Publicado 17 de Setembro de 2020 - 7h17

Ataque de fúria de cliente em sorveteria de Campinas expõe grosserias que seguem desafiando a boa convivência

No mundo frenético que a sociedade contemporânea acostumou-se a viver, os ataques de fúria seguem tendo um protagonismo espantoso, resultado sobretudo da incapacidade humana de lidar com frustrações e aborrecimentos. Episódios de intolerância revelam-se nas metrópoles muitas vezes como atos de barbárie civil, estopim de reações violentas e destemperadas. Nada que a aceitação do contraditório não solucionasse.

Os campineiros foram surpreendidos nos últimos dias com um vídeo que viralizou nas redes sociais, com amplo alcance nas mídias do Correio Popular, como o Instagram, Facebook e site do jornal, sobre o comportamento violento de um cliente numa sorveteria do Flamboyant. O consumidor teve uma reação virulenta porque não concordou com a observação de uma das sócias que pediu que ele usasse a máscara de proteção de forma correta.

A pandemia, como todas as implicações na saúde mental das pessoas, obviamente gerou uma atmosfera global de cansaço e frustração. Com o isolamento social, seria natural que muita gente tivesse episódios de aborrecimento, depressão e até ira. Tudo isso tem sido relatado mundo afora por profissionais da psicologia´ e da medicina. O comportamento é individualizado, mas seis meses de pandemia sugerem um adoecimento da própria comunidade.

Nada que justifique, porém, o ataque verbal e físico do cliente, em flagrante captado por um consumidor que estava dentro do estabelecimento comercial. Aos berros, xingamentos e chutes, ameaçou e intimidou a proprietária, sem ser contido por sua acompanhante, em mais um sintoma desse desequilíbrio psicossocial.

Não é a primeira vez que esses flagrantes são mostrados por vídeos amadores, que ganham repercussão nacional. O episódio do desembargador que ofendeu um guarda municipal, em Santos, por não concordar em ser multado pela falta de máscara numa caminhada, também viralizou e gerou grande repulsa. O Brasil também já tinha ficado estarrecido com a reação de um casal no Rio que humilhou um agente da Prefeitura, que também pediu para usar máscaras e evitar a aglomeração.

A praga do “você sabe com quem está falando” é um reflexo da falta de empatia e de tolerância e do sentimento de escalas sociais que esses algozes fixam, como se melhores fossem e como se mais importantes fossem. Esse é um vírus da arrogância e da impertinência para a qual não há vacina. Erra também quem se dedicou a enxovalhar o caso, participando de uma espécie de "tribunal da web". O linchamento, embora compreensível pela indignação (e não se deve mesmo tolerar episódios como esse), segue um caminho perigoso, que pode resultar em mais violência. A trilha adequada é a da educação e das regras sociais. A esse pequeno contingente de incivilizados, a lei. Que as autoridades policiais e do Ministério Público (MP), se acionadas forem, possam investigar e denunciar à Justiça esse ato hostil na sorveteria, punindo o agressor com o rigor devido.