Publicado 25 de Setembro de 2020 - 8h41

Por Maria Teresa Costa

Felipe Gonçalves da Silva, do Conselho

Matheus Pereira / AAN

Felipe Gonçalves da Silva, do Conselho

As eleições municipais de novembro em Campinas terão a menor participação de eleitores com 16 e 17 anos desde 1990, após o voto facultativo ser instituído em 1988. Em 1992, na primeira eleição municipal com a participação desses jovens, 8.152 estavam aptos a votar – neste ano serão 1.320, uma queda de 83,8%. Na comparação com a última eleição, em 2016, a queda é de 64,3%.

O fenômeno está ocorrendo em todo o País. Neste ano, estão aptos a votar pouco mais de 1 milhão de jovens de 16 e 17 anos, 55% menos que o contabilizado em 2016. Para o presidente interino do Conselho Municipal da Juventude, Felipe Gonçalves da Silva, duas hipóteses podem explicar esse fato: crise de representatividade e queda na proporção de jovens na população.

Ele observa que no final dos anos 90 e início dos anos 2000, o País viveu a chamada onda jovem, em que a proporção de jovens era a maior entre a população. “Foi um momento que o os movimentos sociais da juventude estavam mais efervescentes e havia participação concreta deles. Depois disso, a proporção de jovens na população começou a cair e começou uma retração na participação política”, disse.

Os jovens voltaram às ruas em 2013 em todo o País, no que ficou conhecido como o Movimento dos 20 centavos, ou Jornada de Junho — que inicialmente surgiu para contestar os aumentos nas tarifas de transporte público, principalmente nas principais capitais, e que se ampliou para temas como os gastos públicos em grandes eventos esportivos internacionais, a má qualidade dos serviços públicos e corrupção.

Depois disso, cada vez mais, segundo Felipe, os jovens foram se afastando da participação política, até pelo fato de existir poucos candidatos a cargos eletivos que representam os interesses da juventude. “Temos uma grande quantidade de jovens que a gente brinca e chama de isentões. Não assumem bandeiras, não estão em movimentos sociais e políticos. Aqueles políticos que teoricamente os representam, não representam os interesses da população. Soma-se a isso, o descrédito na classe política e a falta de perspectivas.”

Em Campinas, os jovens de 16 e 17 anos representam 0,15% do eleitorado. Em 2016, essa representatividade era de 0,45%. No País, eles são 0,7% do eleitorado contra 1,6% na última eleição municipal. A redução foi a maior da série histórica e ocorreu em ritmo maior que a variação dessa população no mesmo período. De acordo com dados do IBGE, o total de jovens de 16 e 17 anos encolheu 9,5% no país em quatro anos.

Para o cientista político Lejeune Mihram, o registro eleitoral de jovens entre 16 anos e 18 incompletos é facultativo, e nem sempre ele esteve em alta, salvo períodos de maior participação política no país. Segundo ele, desde 2013, com as chamadas Jornadas de Junho e mais particularmente após a cassação da presidente Dilma Rousseff em 2016, o país vive uma crescente criminalização da política. “Isso é diuturnamente apresentado nos meios de comunicação como alguma coisa ruim, suja, abjeta e que não se deve participar. Isso gera amplo desencanto na população sobre participação política, em especial na juventude”, afirmou.

Mais do que não se inscrever, Mihram prevê para as próximas eleições uma abstenção imensa, “provavelmente a maior de nossa história, em função da pandemia, em função de desencanto e com o afrouxamento da já pequena multa pela ausência. Lamento profundamente que tenhamos chegado a este fundo de poço”, disse.

Cenário político brasileiro afugenta o futuro da nação

Samuel Tigre, de 16 anos, não vai votar este ano. Por conta da pandemia, acabou perdendo o prazo para tirar o título de eleitor e lamenta muito por isso, porque queria votar. Sua experiência no ano passado, como presidente do Parlamento Jovem da Câmara de Campinas, mostrou que é importante participar do processo político, apesar do desencantando da juventude com o tema. Como vereador escolhido por alunos de 23 escolas que se inscreveram no programa de formação política que visa potencializar a atuação democrática dos jovens e seu protagonismo político, Samuel em duas explicações para o baixo número de jovens aptos a votar nas eleições. O primeiro é que, assim como ocorreu com ele, muitos não tiraram o título de eleitor por causa da pandemia — o receio de se infectarem pelo novo coronavírus e a necessidade de isolamento, manteve os jovens em casa. O segundo, é mesmo o desencanto. “Com tudo isso que está ocorrendo no País, os jovens não têm uma liderança em quem se espelhar. Não temos uma liderança jovem que podemos dizer que nos representa”, afirmou. (MTC/AAN)

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Maria Teresa Costa