Publicado 14 de Setembro de 2020 - 11h11

Por AFP

Ao final de um verão de sol e praia, os israelenses vivem nesta segunda-feira (14) um misto de indignação e decepção com a imposição de um confinamento geral por pelo menos três semanas, após uma segunda onda de contaminação do coronavírus.

No domingo, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou um reconfinamento nacional a partir da sexta-feira, por ocasião do feriado de Rosh Hashanah (Ano Novo Judaico), que continuará durante o Yom Kippur e terminará no último dia de Sucot, por volta de 10 de outubro.

"Estou muito deprimida. Vou ficar sozinha de novo nas festas (...) sem meus filhos e meus netos", lamenta Rivka Vakninla, de 70 anos. "Por que agora durante as festas?", diz, referindo-se ao momento do confinamento.

Os israelenses aceitaram em maior, ou menor grau, o primeiro confinamento de março-abril, que coincidiu com a Páscoa judaica. Desta vez, porém, o cansaço e a incompreensão são evidentes.

"É injusto!", critica Eti Avishaï, costureira de 64 anos. "Eles não evitaram as grandes multidões nas sinagogas, casamentos e outros eventos [nos últimos meses] e, agora, não poderei estar com meus filhos e netos!", desabafou.

Esta tristeza é compartilhada por Barak Yeivin, de 56 anos, diretor do Conservatório de Música e Dança de Jerusalém. "Em vez de fazer cumprir as regras estritamente, como a máscara e a proibição de reuniões, eles nos punem coletivamente", reclama.

Segundo dados coletados pela AFP, Israel é o segundo país do mundo que registra o maior número de casos de coronavírus per capita nas últimas semanas, depois do Bahrein - um novo aliado, com o qual deve assinar um acordo de normalização na terça-feira em Washington.

A partir de agosto, com a reabertura de escolas e a celebração de casamentos e de outros festejos, a taxa de infecção em Israel voltou a subir, com 156.823 casos de covid-19, incluindo 1.126 mortes, para uma população de nove milhões de habitantes.

Na semana passada, as autoridades impuseram toque de recolher em cerca de 40 cidades do país, principalmente nas árabes e ultraortodoxas judias, na esperança de conter a disseminação do vírus. Isso não impediu o aumento do número de casos, com hospitais e pessoal médico "sobrecarregado", de acordo com Netanyahu.

Por isso, algumas pessoas resignadas, como Margalit Levi, de 76 anos, veem esse novo confinamento como um mal necessário. "Não é prático, mas é a única saída", estima.

Judith Touati, uma assistente social de 30 anos, está preocupada com os efeitos psicológicos dessa crise para os idosos, que já estavam isolados no primeiro confinamento.

"Eu entendo o risco de pessoas mais velhas estarem com muitas pessoas na mesma mesa. Mas é melhor deixá-los morrer sozinhos?", questiona.

Nada de extraordinário acontecia esta manhã nas lojas e estabelecimentos comerciais, que foram tomados de assalto durante o primeiro confinamento.

Há rumores de uma possível escassez de leite, depois da escassez de ovos em março, diz Noah Garber, cliente de supermercado, que faz suas compras.

Nas páginas do jornal "Maariv", de grande circulação, o conhecido cronista Ben Caspit afirma não encontrar "nenhuma explicação convincente" para justificar o confinamento. E acrescenta: "Não sei quem está certo, mas a verdade é que o processo de tomada de decisão hoje lembra mais um "shtetl" [cidade judia] na Europa Oriental no século XIX do que um país de alta tecnologia que lança satélites no espaço e intercepta foguetes em pleno voo".

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