Publicado 14 de Setembro de 2020 - 9h31

Por AFP

Entre as teorias da conspiração que proliferam com a pandemia da covid-19, o movimento QAnon, nascido em círculos pró-Trump nos Estados Unidos em 2017, abre caminho "lentamente, mas com segurança" na Europa, alimentando-se dos temores que vieram à tona com a crise global da saúde - dizem especialistas ouvidos pela AFP.

Bem conhecido nos Estados Unidos, o fenômeno ainda é marginal do outro lado do Atlântico, mas nos últimos meses ganhou visibilidade exponencial.

Está presente nas redes sociais, seu principal local de incubação, mas também nas recentes manifestações contra as medidas restritivas de saúde em Berlim, Londres, ou Paris, onde os slogans do QAnon ecoaram nas ruas.

"As teorias da conspiração do QAnon estão-se espalhando pela Europa", onde "a pandemia serviu de catalisador", de acordo com um relatório de julho do Newsguard, uma organização que analisa sites de notícias.

"O período de incertezas e o contexto de ansiedade são terreno fértil", acrescentou uma fonte do governo francês, referindo-se a uma tendência "ao mesmo tempo sectária e ideológica".

A teoria QAnon - seu nome vem de Q, um misterioso funcionário que estaria tentando frustrar esse complô - afirma que os Estados Unidos são governados por forças ocultas, envolvidas em redes pedófilas internacionais, as quais buscam estabelecer uma "nova ordem mundial". Apenas o presidente Donald Trump, que nunca negou abertamente os QAnons, poderia derrubá-los.

"Muito centrada nos Estados Unidos no início, essa teoria, cuja narrativa se baseia em elites e redes de pedofilia, se adapta muito facilmente aos problemas locais", explica a diretora da Newsguard, Chine Labbéa.

Os locais da QAnon na Europa apareceram no final de 2019 e no início de 2020, mas sua popularidade "explodiu" com a pandemia da covid-19 e com o confinamento, observa.

A Newsguard, que estudou sites, páginas e contas da QAnon no Reino Unido, Alemanha, França e Itália, contabilizava cerca de 450.000 seguidores, ou membros, no final de julho.

"Mas a consulta a esse tipo de conteúdo continua crescendo exponencialmente", diz Labbé.

Surgida em sites confidenciais, a "teoria QAnon" está-se espalhando para sites populares de notícias falsas na Europa. Adapta-se aos contextos políticos locais. Na Alemanha, ou na França, por exemplo, Angela Merkel e Emmanuel Macron são apresentados como peões do chamado "Estado profundo". Esta facilidade de adaptação permite aumentar sua visibilidade.

"QAnon é uma esponja para as teorias da conspiração. Tudo, de mitologias antissemitas a 5G, ou à máscara, passando pela ficção científica (...) o arco de absorção é fenomenal", exemplifica Tristan Mendes France, que ensina culturas digitais na Universidade de Paris.

"E as diferentes teorias se alimentam umas das outras", acrescenta, destacando que seu "ponto forte" se baseia na "pedocriminalidade".

"Se você questiona a luta dele, você apoia a pedofilia", completa.

Algumas personalidades europeias popularizaram as teses de QAnon, como o cantor alemão Xavier Naidoo. No Reino Unido, o cantor Robbie Williams difundiu em junho a teoria do "Pizzagate" - precursora do movimento QAnon em 2016 -, segundo a qual uma pizzaria em Washington serviu de esconderijo para uma elite democrata pedófila.

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