Publicado 25 de Setembro de 2020 - 15h22

Por AFP

Uma cadeira desocupada, uma guitarra em silêncio, uma foto. Estes objetos cotidianos falam da vida e do vazio deixados por aqueles que se foram vítimas do novo coronavírus. Até agora, a pandemia da covid-19 deixou quase um milhão de mortos no mundo.

Nesta reportagem, a AFP retrata algumas dessas ausências, por meio dos objetos e ambientes dos mortos, compartilhados por seus familiares.

Sobre sua cama, continuam intactos um cobertor estampado com bolas de futebol e, junto à cabeceira, uma almofada bordada com a frase "Penso em você". Ao lado, um pássaro na cor turquesa.

Um crucifixo permanece na parede de tijolos. Seu quarto é um espaço emprestado por uma escola primária de Xochimilco, onde seu pai é porteiro.

Ali, Hugo López Camacho, um maqueiro do Hospital 20 de Novembro da Cidade do México, vivia com a mãe, a irmã e o cunhado, mais os sobrinhos.

Ele faleceu de covid-19, aos 44 anos, nesse centro de saúde, após subir e descer seus andares levando pacientes por 14 anos. O carro que levou seu corpo partiu em meio a uma corrente humana formada por seus colegas, que se despediram entre pétalas e aplausos.

Primeiro, vieram o estado gripal e a dor de cabeça; depois, a dificuldade de respirar, relata sua família, que ainda não entende como Hugo sucumbiu. Ele se cuidava muito, não fumava, nem bebia, e levava uma vida tranquila - afirmam.

No final de abril, ele desmaiou ao chegar ao hospital. Esse foi o último dia que sua mãe o viu. Ao saber que seria intubado, ele ligou para se despedir.

"Ele sabia o que ia acontecer", diz a irmã.

Duas semanas mais tarde, Hugo faleceu. Crematórios superlotados forçaram uma espera de dias para sua cremação, uma alternativa contrária às ideias tradicionais de seus familiares. Quando a pandemia passar, eles levarão suas cinzas para descansar com as de suas avós em um túmulo familiar.

A epidemia foi severa com a família de Paulo Roberto, um aposentado de 75 anos. De suas quatro filhas, duas adoeceram com covid-19 e apenas uma delas conseguiu escapar. Sua esposa também adoeceu e foi internada na UTI, mas acabou se recuperando.

O próprio Paulo, amante da música que tocava vários instrumentos, morreu com o vírus. Foi em junho.

Em sua casa em Belo Horizonte, no sudeste do Brasil, sua guitarra azul ainda está pendurada em uma parede de pedra, que junto com sua poltrona favorita atestam que ele aproveitava sua aposentadoria.

"Ele ficava o tempo todo no sofá da sala, onde assistia filmes, documentários e dormia todos os dias", disse à AFP Maria Cândida Silveira, que compartilhou meio século de sua vida com ele.

Escrito por:

AFP