Publicado 25 de Setembro de 2020 - 10h12

Por AFP

Além de diminuir o risco de contágio da covid-19, a máscara poderia atenuar a gravidade da doença em caso de infecção e aumentar a imunidade da população à espera de uma vacina, segundo uma tese científica ainda a ser avaliada.

"Acreditamos que as máscaras podem ser uma espécie de "ponte" para uma vacina", explica à AFP a doutora Monica Gandhi, especialista em doenças infecciosas na Universidade da Califórnia, em São Francisco.

Gandhi apresentou sua teoria em um artigo publicado em 8 de setembro na revista médica americana New England Journal of Medicine (NEJM).

Sua hipótese é a seguinte: uma pessoa infectada com a covid-19 usando máscara tem menos chances de desenvolver um quadro grave da doença que outra com o rosto descoberto, já que absorve uma menor quantidade do vírus.

"Começamos vários estudos para verificar esta tese, analisando por exemplo se a obrigação da máscara em algumas cidades do mundo reduz a gravidade da doença", explica Gandhi.

Desse modo, se for comprovado que a máscara "aumenta a porcentagem de infecções assintomáticas", seu uso generalizado teoricamente permitiria aumentar "a imunidade" da população e, com isso, chegar a "um controle intermediário da epidemia enquanto se espera por uma vacina", continua.

"Mais um motivo para usar a máscara", destaca à AFP o doutor George Rutherford, que confirmou o artigo.

Os dois pesquisadores traçam um paralelo com a variolização - uma técnica rudimentar empregada no século XVIII, antes do surgimento das vacinas. Tratava-se de expor uma pessoa saudável a uma pequena quantidade de vírus da varíola, na esperança de que segregasse anticorpos e, portanto, ficasse imunizada.

A publicação do artigo no NEJM gerou uma chuva de reações.

"É apenas uma teoria, mas há muitos argumentos a seu favor", afirma Bruno Hoen, diretor de pesquisa médica no Instituto Pasteur de Paris.

A máscara foi considera inútil pelas autoridades de saúde nas primeiras semanas da pandemia de covid-19 - quando havia uma grande carência em muitos países - mas, foi recomendada posteriormente principalmente para proteger os demais.

No entanto, para Angela Rasmussen, virologista da Universidade de Columbia de Nova York, no momento não é certo que uma dose menor do vírus reduza a gravidade da doença, também não se sabe até que ponto a máscara reduz esta dose e, em relação à imunidade, ainda se desconhece se é efetiva e/ou duradoura.

"Atualmente, nenhum dado comprova que a máscara atenua a gravidade ou que garante uma proteção através de uma variolização", diz esta virologista.

Um suposto vínculo entre a dose e a gravidade só pode ser estabelecido comparando situações já existentes - e, portanto, com um nível relativo de testes - e não por um estudo científico específico. Além disso, do ponto de vista ético, "não podemos expor deliberadamente pessoas ao vírus", destaca Gandhi.

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