Publicado 26 de Agosto de 2020 - 19h05

Quando estive no Japão pela primeira vez, pude presenciar cenas do cotidiano nipônico que me chamaram muito a atenção. Embora soubesse das histórias contadas pelos meus familiares sobre hábitos e costumes japoneses, especialmente os da ilha de Okinawa, de onde vieram meus antepassados, quando vi com meus próprios olhos aquelas pessoas andando de máscaras nas ruas, não tive como ficar insensível e curioso com aquilo. Em minhas andanças por lá, também fui surpreendido por outros comportamentos que tive a oportunidade de presenciar, os quais demonstram um grau elevado de civilidade e consciência, principalmente no que tange às regras de convivência social e respeito pelas pessoas. Nunca me esqueço do dia em que vi um comerciante correndo com um cinzeiro na mão atrás de um cliente estrangeiro que fumava na calçada, se oferecendo para recolher as cinzas, antes que o sujeito as jogasse no chão. Ou então a proibição do uso de celulares em locais públicos como cinemas e teatros, fato que acabou me inspirando a formular, em 1999, a Lei que proibiu o uso de celulares nesses locais, durante a exibição de filmes ou apresentações.

Voltando à questão das máscaras, passados quase 30 anos, o brasileiro se viu obrigado a usar esta peça que há décadas faz parte do vestuário japonês. A pandemia da Covid-19, que já infectou mais de 13 milhões de pessoas e causou quase 550 mil mortes em todo o mundo, provocou uma onda de transformações de hábitos e costumes nunca vista antes. Mas no Japão, este velho hábito de cobrir o rosto com um pano ou com as mãos, conservou inúmeras vidas, enquanto milhões de pessoas sucumbiram diante da fúria do vírus que se espalhou por todo o planeta e continua a se propagar e contaminar pessoas. O uso generalizado da máscara, observado na sociedade japonesa há décadas, é uma das razões por trás da baixa de infecções e mortes por Covid-19. Mas quais são as razões que levaram o povo japonês a aderir ao uso de máscaras faciais? Há registros que mostram que durante o período Edo (1603 a 1868), marcado por um forte isolamento político e econômico, as pessoas cobriam o rosto com um pedaço de papel ou com um ramo de sasaki, uma planta considerada sagrada para impedir que seu “hálito sujo” saísse.

Quem explica isto é o professor de sociologia da Universidade Shumei, Mitsutoshi Horii, em entrevista à BBC. Segundo o estudioso, este conceito de “hálito sujo” surgiu nesta época, que vai de 1603 a 1868, quando o país foi governado pelos xoguns da família Tokugawa. Edo era o antigo nome da cidade de Tóquio. Naquela época, embora as pessoas já tivessem este costume, ainda não havia conhecimento prático dos efeitos e da existência de vírus e micróbios, traduzia apenas um conceito de limpeza. Mas este cuidado acabou sendo incorporado com força no cotidiano japonês na pandemia da chamada gripe espanhola no início do século 20.

No Japão, essa pandemia causou cerca de 23 milhões de infecções e 390 mil mortes, em um país que naquela época tinha 57 milhões de habitantes. O governo japonês montou uma estratégia de vacinação, isolamento e uso de máscaras cirúrgicas ou máscaras faciais para impedir a pandemia, o que acabou ajudando a controlar a crise. O fato é que durante a gripe espanhola o uso dessa proteção facial era uma prática generalizada em todo o mundo. Mas então, por que apenas os japoneses continuaram usando máscaras como parte de sua cultura até hoje? Para o professor de história japonesa Georg Sand, da Universidade de Georgetown, há uma falsa crença de que os japoneses adotaram essa medida porque seus governos são autoritários e há uma obediência cega aos regulamentos internos. Segundo o historiador, eles fizeram isso porque confiavam e confiam na ciência. Ou seja, o uso de máscaras era e é uma recomendação científica, aceita e seguida pelos japoneses.

No Brasil, vivemos uma situação inversa, onde o negacionismo à ciência e a proliferação de crendices no combate à pandemia da covid-19, coloca o Brasil no topo do ranking dos países mais afetados por esta crise sanitária mundial. Os brasileiros adoram a cultura japonesa, muitos a seguem e a admiram. Falo como brasileiro que sou, apesar dos traços orientais herdados de meus pais e avós. Por isso, torço para que possamos nos espelhar na experiência milenar deste povo oriental que com muita sabedoria enfrentou grandes calamidades ao longo de sua história.