Publicado 26 de Agosto de 2020 - 5h30

O presidente Jair Bolsonaro construiu uma reputação de ser um político verborrágico e destemido, encarando as discussões como se estivesse com a mão no coldre. Essa assertividade, que pode ser interpretada como destempero em muitas ocasiões, ajudou a moldar a figura de um homem firme nas convicções, sem juízo de sua visão de mundo.

Neste olhar “pronto para a briga”, desde que assumiu a Presidência da República, Bolsonaro nunca escondeu sua aversão à imprensa clássica. Sua comunicação sempre se deu de forma eficiente na mídia digital, aproveitando as novas tecnologias e imprimindo uma marca que fez dele um fenômeno de multidões.

Mas esse perfil tech, arquitetado antes das eleições, não pode ser enxergado como símbolo de boa política de comunicação e relacionamento quando se está investido do cargo máximo da República. O rito impõe compostura e respeito ao pensamento contrário, à pergunta que incomoda e aos profissionais que exercem o jornalismo crítico, sem açodamento.

A versão “paz e amor” de Jair Bolsonaro, que estava sendo levada a contento, teve recaída em dois episódios emblemáticos nos últimos dias, um deles na saída da Catedral de Brasília, quando falou da vontade de dar “porrada” na boca de um repórter por pergunta que julgou inconveniente, e em evento no Planalto, quando considerou que os jornalistas “bundões” têm menos chance sobreviver à Covid-19.

Os dois casos não podem ser observados de forma individualizada. Eles estão dentro de um contexto que é uma das marcas do presidente, ou seja, atacar quando inquirido e desprezar grupos ou indivíduos que julga impertinentes. Ao insistir neste modelo, ignora o importante papel do jornalismo profissional, que está exercendo a sua função de questionar.

A Associação Nacional de Jornais (ANJ), do qual o Correio Popular é associado, reagiu com o seu presidente, Marcelo Rech. “É lamentável que, mais uma vez, o presidente reaja de forma agressiva e destemperada à pergunta de jornalista. Essa atitude em nada contribui com o ambiente democrático e de liberdade de imprensa previstos pela Constituição”.

Até o jornalista José Luiz Datena, considerado simpático ao presidente e com linha direta para entrevistas com ele, não ficou quieto. “Como todos nós somos bundões? Teve muita gente que perdeu a vida, que deu a vida inclusive durante o regime militar fazendo matérias. A imprensa foi fundamental na mudança desse país em várias oportunidades. Então, os jornalistas não são bundões, ao contrário, são gente que vai pra rua trabalhar enfrentando dificuldades enormes.” Se não é possível ter apreço, que pelo menos haja respeito ao papel da imprensa. Ela sempre vai questionar e exercer um papel fiscalizador, próprio da democracia.