Publicado 26 de Agosto de 2020 - 12h44

Por Francisco Lima Neto

A Administração garante ter consultado o Condepacc sobre o asfaltamento e alega que os paralelepípedos não fazem parte do conjunto tombado

Leandro Ferreira/AAN

A Administração garante ter consultado o Condepacc sobre o asfaltamento e alega que os paralelepípedos não fazem parte do conjunto tombado

A Prefeitura decidiu colocar asfalto numa rua de paralelepípedo na Vila Industrial - considerado um dos pontos mais antigos da cidade e que conta com grande número de imóveis tombados pelo patrimônio histórico. O asfaltamento se deu na Rua João Teodoro. A alegação da Prefeitura é que o piso de paralelepípedo não é tombado, mas especialista diz que faltou sensibilidade dos gestores.

O tradicional bairro tem várias construções tombadas pelo patrimônio histórico. A Rua Alferes Raimundo, paralela à João Teodoro, possui um conjunto de oito casas, do início da década de 1920, tombadas. Além delas, 15 casas da Rua Venda Grande e 18 da Rua Francisco Theodoro também fazem parte da preservação da história local, junto com as vilas operárias Manoel Freire e Manoel Dias.

Ana Villanueva, formada em arquitetura e urbanismo e doutora em História pela Unicamp, diz que a parte histórica da Vila Industrial é toda de paralelepípedo e vê problemas na intervenção. "Primeiro tem o problema ambiental. As ruas são bem inclinadas. É uma descida grande até lá embaixo, no Piçarrão. Por conta dos paralelepípedos, quando chove há uma absorção grande dessa água. Se asfaltada, a água descerá em maior quantidade e velocidade e com certeza vai passar a invadir as casas", diz. Outro fator apresentado por ela é o problema histórico. "Os paralelepípedos são do começo do século 20. A história não é só a arquitetura. É o conceito de patrimônio ambiental urbano, o conjunto forma o patrimônio, como, por exemplo, o traçado das ruas, a vegetação, entre outros. Se pensar um prédio isolado talvez ele não seja patrimônio, mas o conjunto forma o ambiente e o patrimônio", explica.

A profissional escolheu o bairro para morar exatamente pelo seu valor histórico. "A minha casa é de 1924, comprei aqui por ser antiga, para restaurar, uma iniciativa pelo patrimônio. Mas estão passando asfalto na rua de baixo e aqui está tremendo tudo, parece terremoto. A casa não tem fundação", afirma.

Ainda de acordo com ela, já houve episódios de motoristas, principalmente de caminhões, perderem o controle por excesso de velocidade e com o asfalto a situação tende a piorar. "Com o paralelepípedo são obrigados a andar devagar e isso é bom porque evita acidentes e trepidação nas casas antigas. Com asfalto vai aumentar a velocidade, o perigo e a trepidação. Não consigo ver um bom motivo para essa intervenção a não ser interesses econômicos já que têm prédios novos para serem inaugurados aqui", relata.

Ela diz que fez reclamações no 156, mas não recebeu nenhum posicionamento. A única pergunta que fizeram a ela é se a rua é caminho do BRT. "Uma pessoa do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) me disse apenas que onde estão fazendo não é tombado, mas precisa ser? É uma questão de bom senso", argumenta.

Ela criou um abaixo-assinado virtual para pedir o tombamento do conjunto arquitetônico e urbano caracterizado como "sítio histórico", incluindo os paralelepípedos, traçado urbano, vegetação de época e definição de limites de gabarito de altura, para evitar que a Vila Industrial, que surgiu como um bairro operário das Companhias de Estrada de Ferro da Paulista e da Mogiana no final do século 19, seja descaracterizada. A meta é conseguir 500 assinaturas, em pouco mais de um dia 346 já foram alcançadas.

A Prefeitura informa, por meio da assessoria de imprensa, que a Rua João Teodoro está recebendo asfalto, em toda extensão, porque é uma das principais vias do bairro e itinerário de ônibus. "O asfalto nessa rua vem atender a uma demanda da população que mora e circula pela região. A obra vai melhorar as condições de tráfego e de segurança, evitando trepidação e derrapagem para veículos em geral, especialmente os mais pesados e em pontos de inclinação", informa.

A Administração ressalta que se preocupou com a parte histórica. "O Condepacc foi consultado e confirmou que os paralelepípedos não são tombados como patrimônio. A obra começou no início da semana passada e deve ser encerrada até o fim desta semana, se não chover. O recapeamento está previsto somente para essa via", afirma.

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Francisco Lima Neto