Publicado 25 de Agosto de 2020 - 19h22

Por AFP

O acordo de paz com as Farc fez a violência recuar na Colômbia. Mas os recentes massacres trouxeram à tona o que os especialistas veem como um novo ciclo de violência, com uma explosão de grupos que se anteciparam ao Estado na reconquista de regiões abandonadas pela antiga guerrilha.

Destroçado por quase seis décadas de luta armada interna, o país, que acreditava ter virado sua pior página com o desarmamento dos paramilitares (2006) e dos rebeldes marxistas (2017) despertou para uma nova realidade: a volta das chacinas ou homicídios de três ou mais pessoas em um único evento.

Desde 11 de agosto pelo menos 36 pessoas morreram nas mãos de esquadrões que invadiram residências ou festas ou que levaram suas vítimas para depois abandonar seus corpos. São ataques em regiões remotas, que têm jovens civis entre suas vítimas.

Só este ano, a ONU documentou 33 chacinas contra 36 em 2019; 29 em 2018 e 11 em 2017.

"Estes (novos) massacres não respondem a uma lógica (ou) plano de um ator que esteja buscando ganhar terreno em nível nacional, estas respondem a dinâmicas muito mais locais", afirma Kyle Johnson, pesquisador da fundação Conflict Responses, à AFP.

O especialista é enfático em que a violência na Colômbia é "um tema cíclico".

Outros analistas concordam com ele, advertindo para uma nova fase atravessada pelo narcotráfico, com uma violência mais fragmentada, promessas de paz descumpridas e questionamentos à estratégia de segurança.

Confira alguns elementos-chave do novo fenômeno, que também ceifou as vidas de centenas de ex-guerrilheiros e líderes sociais.

O governo do presidente Iván Duque vê a mão do narcotráfico na volta da violência. E propõe uma solução: o retorno das fumigações aéreas dos narcocultivos para tirar combustível dos grupos armados.

Suspensas desde 2015, estas aspersões são questionadas por camponeses que tiram seu sustento das plantações e ambientalistas que alegam múltiplos danos.

A Colômbia interrompeu estes voos por recomendação internacional, que advertia que o glifosato é um herbicida potencialmente cancerígeno e houve, então, uma expansão recorde de plantios.

Depois de cinco décadas de luta, o país continua sendo o principal produtor e fornecedor mundial da cocaína consumida nos Estados Unidos e na Europa.

Mas este "não é o único motor da violência" na Colômbia, adverte Maria Alejandra Vélez, do Centro de Estudos de Segurança e Drogas da Universidade dos Andes. Somam-se a extorsão e o garimpo ilegal de ouro, cujos ganhos "superam os do narcotráfico", segundo a justiça.

Além disso, "não necessariamente o aumento de homicídios coincide com o aumento de cultivos de coca", diz a acadêmica.

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