Publicado 25 de Agosto de 2020 - 18h42

Por AFP

Dois homens armados invadiram na noite de segunda-feira a Aldeia Piaraçu, do cacique Raoni Metuktire, e abriram fogo na comunidade sem deixar feridos, denunciou nesta terça-feira (25) o Instituto Raoni.

"Os indivíduos efetuaram 29 disparos e invadiram a terra indígena Capoto/Jarina, seguindo até a aldeia Piaraçu, colocando em risco a vida dos 327 Kayapó que lá vivem", detalhou o comunicado divulgado pelo Instituto.

A aldeia Piaraçu, vizinha ao território Xingu, fica no estado do Mato Grosso.

Segundo a denúncia, os homens "destruíram a barreira sanitária construída pelos próprios indígenas para manter o isolamento social dos 2.423 Mebengokrê nesse período de pandemia" do coronavírus.

As lideranças indígenas da aldeia chamaram a polícia, fizeram um Boletim de Ocorrência e anunciaram que estão "mantendo distância da entrada do território para que não sejam surpreendidos por um novo ataque".

O cacique Raoni, que tem cerca de 90 anos, foi internado em julho com úlcera gástrica, infecção intestinal e anemia. Ele recebeu alta há um mês, quando voltou para sua aldeia.

Conhecido por seus cocares de penas coloridas e pelo grande disco inserido em seu lábio inferior, Raoni viajou o mundo nas últimas três décadas para conscientizar a comunidade internacional sobre a ameaça de destruição da Amazônia.

Em janeiro, ele recebeu dezenas de lideranças indígenas em Piaraçu para discutir estratégias de proteção de suas terras e da Amazônia, diante da ofensiva do presidente Jair Bolsonaro, a favor do garimpo e da exploração energética na maior floresta tropical do planeta.

Os indígenas alertam sobre o avanço de atividades ilegais em suas terras, que causam danos ambientais e colocam em risco as comunidades tradicionais.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) contabilizou nove indígenas mortos em conflitos rurais no último ano, o maior número em ao menos uma década.

Paralelamente, os indígenas também enfrentam a propagação do novo coronavírus, que até hoje já deixou mais de 27 mil deles infectados e 717 mortos, em sua maioria na Amazônia.

No início de agosto, o Supremo Tribunal Federal (STF) ratificou uma medida cautelar que obriga o governo federal a adotar medidas para conter a disseminação do novo coronavírus entre as populações indígenas.

Na véspera do julgamento, o fotógrafo Sebastião Salgado solicitou aos onze magistrados do STF que tomassem providências a respeito.

"Corre-se o risco de transmitir o coronavírus aos indígenas e viver uma catástrofe. Eu chamo isto de um genocídio, que é a eliminação de uma etnia. Acho que o governo de [Jair] Bolsonaro se dirige a isso porque sua posição desde que chegou ao poder é 100% contrária aos indígenas", disse Salgado.

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