Publicado 17 de Junho de 2020 - 19h36

Por Adagoberto F. Baptista

Gilson Rei

Da Agência Anhanguera

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Especialistas da área da Saúde de Campinas receberam com bons olhos o uso do dexametasona em pacientes internados com Covid-19, porém alertaram para o uso correto do medicamento. Os médicos e infectologistas recomendaram o dexametasona apenas em casos mais graves de infecção, sendo um bom recurso apenas nas situações de pacientes que são submetidos à ventilação nos hospitais.

Pesquisadores ingleses anunciaram na terça-feira passada, que a aplicação do corticoide dexametasona em pacientes internados com Covid-19 foi capaz de reduzir as taxas de mortalidade em cerca de um terço entre os casos mais graves.

O dexametasona é muito utilizado nos hospitais desde a década de 60 e pode ser aplicado em comprimidos ou elixir. É indicado para o tratamento de alergias e inflamações e para o tratamento de sintomas de vários tipos de doenças, como problemas reumáticos e artríticos, de pele, nos olhos, glandulares, pulmonares, sanguíneos e gastrintestinais, tanto em adultos como em crianças.

É um medicamento de baixo custo, porém todos os especilistas e médicos afirmam que não deve ser utilizado como prevenção à Covid-19, nem nas primeiras fases da doença.

A infectologista Raquel Stucchi, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), disse que o dexametasona foi produzido em 1957 e começou a ser utilizado a partir de 1961. “Tem ação anti-inflamatória e é aplicado em casos reumáticos e artríticos. Sua medicação é também muito aplicada em inflamações de pele, nos olhos, glândulas, pulmões e em casos de problemas sanguíneos e gastrintestinais”, afirmou.

Raquel alertou, entretanto, que no caso da Covid-19, as pessoas não devem sair correndo até as farmácias para comprar o medicamento e aplicar sem orientação médica. “Se alguém estiver na primeira fase da doença e se medicar, vai piorar a situação de saúde. A situação pode se agravar e a pessoa até morrer porque a dexametasona reduz a imunidade. A resistência fica baixa contra o vírus. O coronavírus se multiplica muito e se o sistema imunológico estiver baixo, a Covid-19 pode levar a pessoa à morte”, afirmou.

A infectologista explicou que a ação do medicamento é para reduzir a inflamação e que, por isto, deve ser aplicado apenas na fase em que a pessoa sente dificuldade em respirar e vai para o respirador mecânico. “Nesta fase existe muita inflamação e menos vírus no organismo e o dexametasona apresentou eficiência em mais de 30% dos casos graves”, ressaltou.

Carmino de Souza, secretário de Saúde de Campinas, defendeu também o uso do medicamento, por ser um corticoide muito usado e ser um potente anti-inflamatório. “A pesquisa feita no Reino Unido mostra que o medicamento foi usado por dez dias na dose baixa e foi ótimo. Houve redução de 30% nas mortes”, afirmou. “Porém, tem que ser utilizado apenas nas pessoas intubadas, que estão em estado crítico”, alertou. “Nas outras fases é preocupante aplicar porque aumenta a replicação do vírus e antes destas fases não é recomendado”, comentou Carmino. “É um medicamento que deve ser usado de acordo com a situação”, finalizou.

Dexametasona

O dexametasona é um forte anti-inflamatório e imunossupressor usado em doenças reumatológicas (como artrite) e alérgicas (como asma), foi aplicada em doses de 6 mg uma vez por dia em 2.104 pacientes no Reino Unido, que fizeram parte de um estudo clínico randômico que recebeu o nome de "Recovery". Eles receberam a medição por dez dias e tiveram seu desempenho comparado com 4.321 pacientes que receberam apenas os cuidados habituais.

Os pesquisadores da Universidade de Oxford disseram que entre os pacientes que receberam a medicação, houve redução de um terço das mortes dos pacientes ventilados e de um quinto em outros pacientes recebendo apenas oxigênio. Não houve benefício para os pacientes que não necessitaram de suporte respiratório.

Já entre os pacientes que receberam os cuidados usuais isoladamente, a mortalidade em 28 dias foi mais alta naqueles que necessitaram de ventilação (41%), intermediária nos pacientes que precisaram apenas de oxigênio (25%) e menor entre aqueles que não necessitaram de intervenção respiratória (13%). Com base nesses resultados, os pesquisadores apontam que, com o tratamento, uma morte seria evitada entre cada oito pacientes ventilados ou para cada 25 pacientes que necessitem apenas de oxigênio.

O medicamento está sendo avaliado no Brasil pela Coalização Covid Brasil, esforço dos hospitais Sírio Libanês, Albert Einstein, HCor e BricNet para fazer ensaios clínicos com diversas drogas candidatas. No País, a marca mais conhecida do remédio é o Decadron, mas há também versões genéricas.

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Adagoberto F. Baptista