Publicado 19 de Junho de 2020 - 11h45

Por Estadão Conteúdo

A prisão ativa nova 'bomba-relógio' no governo, com potencial de ser ainda mais perigosa do que as outras investigações, avaliam cientistas políticos

AFP

A prisão ativa nova 'bomba-relógio' no governo, com potencial de ser ainda mais perigosa do que as outras investigações, avaliam cientistas políticos

Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, foi preso nesta quinta-feira em Atibaia (SP). Queiroz - cujo paradeiro se tornou um mistério desde que o Estadão revelou em dezembro de 2018 que ele fez movimentações bancárias atípicas quando estava lotado no gabinete do então deputado estadual e filho do presidente Jair Bolsonaro - foi localizado pela Polícia Civil paulista em uma casa de Frederick Wassef, advogado de Flávio na investigação sobre suspeita da prática de "rachadinha" na Alerj.

A prisão de Queiroz amplia o cerco à família Bolsonaro. No Supremo Tribunal Federal, o inquérito das fake news avança sobre ações do chamado "gabinete do ódio", grupo de assessores do Palácio do Planalto comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), e o próprio presidente é alvo de uma investigação que apura suspeitas de tentativa de interferência na Polícia Federal. Atual senador pelo Republicanos, Flávio disse ontem que prisão de seu ex-assessor é uma tentativa de "atacar" o presidente.

Bolsonaro classificou a prisão como "espetaculosa". "Parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da terra", afirmou o presidente. A operação foi coordenada pelo Ministério Público do Rio e executada pela polícia e por promotores de São Paulo. A ordem de prisão foi expedida pela Justiça fluminense com a justificativa de que Queiroz estaria dificultando a apuração sobre organização criminosa. O ex-assessor foi surpreendido enquanto dormia na casa de Atibaia logo no início da manhã por policiais do departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope).

Nos últimos meses, Wassef, dono do imóvel, negou em entrevistas e conversas reservadas que mantivesse contato ou soubesse onde estava o ex-assessor. Bolsonaro deu declarações sobre o caso no início da noite em uma transmissão na internet, após ministros e advogados passarem o dia discutindo uma estratégia para desvincular o advogado do presidente. Uma nota foi divulgada para afirmar que Wassef não representa Bolsonaro em nenhuma ação judicial. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Para analistas, governo enfrenta 'bomba-relógio'

A prisão de Fabrício Queiroz ativa nova "bomba-relógio" no governo de Jair Bolsonaro, com potencial de ser ainda mais perigosa do que as outras investigações envolvendo o presidente e sua família, avaliam cientistas políticos ouvidos pelo Estadão. Para eles, o governo fica ainda mais fragilizado e com nova pendência na Justiça, ao lado de ações como o inquérito das Fake News, a cassação da chapa e a investigação sobre a interferência na Polícia Federal.

"Tudo vai depender dos próximos dias, do que o Queiroz depor. E se ele decide falar de maneira sincera? Do ponto de vista da periculosidade, ele é muito mais perigoso, por exemplo, do que o inquérito das Fake News", avalia Marco Aurélio Nogueira, cientista político e professor da Unesp. Para ele, a prisão mostra que as acusações contra a família de Bolsonaro estão vindo de "vários lados", fechando o cerco ao presidente.

Apesar da investigação parecer mais nociva para Flávio do que para o presidente, ela certamente trará consequências ao governo, diz o cientista político e professor da FGV de São Paulo Marco Antônio Carvalho Teixeira. "Obviamente o cerco inicial se dará em cima do filho do presidente, mas com certeza não ficará restrito a isso e deverá chegar ao núcleo central do governo, num momento em que o mandatário está acuado por todos os lados e sua gestão vive um dos momentos de maior fragilidade", destaca.

Outro fator é a imprevisibilidade sobre a reação de Queiroz diante de sua prisão, e possivelmente de sua filha e esposa. "Não sabemos a reação dele diante da prisão. Fala-se em delação premiada. E Queiroz acompanha a família Bolsonaro há anos, não é de hoje que conhece o presidente", diz a cientista política e professora da PUC-SP, Vera Chaia. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Na lareira da casa de Wassef, cartaz do AI-5 e bonecos de mafiosos

Três bonecos do mafioso Tony Montana, o personagem do ator Al Pacino no filme Scarface, dirigido por Brian de Palma, em 1984, ladeavam um cartaz alusivo ao Ato Institucional nº 5, decorando a lareira da sala de estar da casa que hospedava o ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz.

Dois dos bonecos de Montana vestiam ternos brancos; o terceiro, um preto. E portavam armas. No filme, Pacino é um criminosos cubano embarcado pelo regime de Fidel Castro nos barcos que partiram do porto de Mariel, em 1980, apinhados de imigrantes para os Estados Unidos. Ali o mafioso faz carreira, reeditando os passos do Scarface original, o mafioso Al Capone, na Chicago dos anos 1920.

No esconderijo de Queiroz, à esquerda da lareira, havia uma televisão em cima de um móvel com duas dúzias de DVDs. Uma raquete para matar mosquitos e um ventilador guarneciam o lado direito. A sala tinha ainda duas poltronas e uma mesa, atrás da qual havia um colchão. Foi sentado em uma de suas cadeiras que o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro acompanhou as buscas da polícia.

Os investigadores só recolheram os documentos de Queiroz. Nenhum objeto do dono do imóvel, o advogado Frederick Wassef - como o cartaz do AI-5 ou os bonecos de Montana -, foi apreendido. Havia a suspeita que o lugar fosse usado para guardar papéis e outros clientes do advogado. Um tapete na casa, aliás, fazia referencia ao escritório de Wassef - Wassef & Sonnenburg Advogados.

Queiroz dormia em uma cama de casal em um dos dois quartos do imóvel. O cômodo tinha ainda um armário com uma imagem de Nossa Senhora. O outro quarto tinha duas camas de solteiro. A cozinha e um banheiro completavam a planta da casa. "O lugar era simples", disse o delegado Osvaldo Nico Gonçalves. Um ambiente bem diferente da mansão de Tony Montana, com o letreiro anunciando: "O mundo é seu". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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