Publicado 19 de Junho de 2020 - 7h48

Por Estadão Conteudo

Abraham Weintraub durante o vídeo em que foi anunciada a mudança no Ministério

Reprodução/Vídeo

Abraham Weintraub durante o vídeo em que foi anunciada a mudança no Ministério

Em vídeo publicado nas redes sociais, o ministro da Educação, Abraham Weintraub anunciou ontem sua saída do governo. O presidente Jair Bolsonaro vinha sendo pressionado a fazer um gesto de trégua ao Supremo Tribunal Federal (STF), e aparece ao lado de Weintraub no vídeo com o anúncio da demissão, a exemplo do que fez com Regina Duarte. Weintraub foi o décimo a cair desde o início do governo. O atual secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, nome ligado ao guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, deve assumir seu lugar na pasta. 

"Eu estou saindo do MEC, vou começar a transição agora e nos próximos dias eu passo o bastão para o ministro que vai ficar no meu lugar, interino ou definitivo. Neste momento, não quero discutir os motivos da minha saída, não cabe. O importante é dizer que recebi o convite para ser diretor de um banco, já fui diretor de um banco no passado, volto ao mesmo cargo, porém no Banco Mundial", disse Weintraub em vídeo publicado no Twitter.

Após a fala de Weintraub no vídeo, Bolsonaro diz que é "um momento difícil para todos", mas afirmou que vai manter os compromissos de campanha. "É um momento difícil, todos os meus compromissos de campanha continuam de pé. A confiança você não compra, você adquire. Todos que estão assistindo são maiores de idade e sabem o que o Brasil está passando. O momento é de confiança, jamais deixaremos de lutar pela liberdade", declarou.

Segundo Weintraub, ele deve assumir uma representação brasileira na diretoria do Banco Mundial, que fica sediado em Washington, nos Estados Unidos.

Weintraub ficou 14 meses no cargo, período no qual acumulou desavenças com reitores, estudantes, parlamentares, chineses, judeus e, mais recentemente, ministros do Supremo. O argumento dos que defendiam a demissão era de que ele se tornou um gerador de crises desnecessárias justamente no momento em que o presidente, pressionado por pedidos de impeachment, inquérito e ações que podem levar à cassação do mandato, tenta diminuir a tensão na Praça dos Três Poderes.

A permanência no cargo se tornou insustentável após Weintraub se reunir, domingo, com manifestantes bolsonaristas e voltar a atacar ministros do Supremo. O grupo desrespeitou uma ordem do governo do Distrito Federal, que proibiu protestos na Esplanada dos Ministérios.

No encontro, Weintraub repetiu a crítica a magistrados: "Eu já falei a minha opinião, o que faria com esses vagabundos". A declaração remete ao que ele havia dito na reunião ministerial de 22 de abril. Weintraub afirmou que, por ele, colocaria na cadeia os ministros do STF, a quem classificou como "vagabundos". Weintraub responde a um processo por causa dessa afirmação.

Na segunda-feira, Bolsonaro chegou a recriminar a ida do ministro ao ato, dizendo que ele não foi "prudente". Na ocasião, isso já indicava que o auxiliar seria demitido.

Amigo dos filhos do presidente, Weintraub vinha resistindo no cargo nos últimos meses por manter o apoio da ala ideológica do governo, da qual fazia parte. Ao nomear um "olavista" como substituto, Bolsonaro reduz as críticas que poderiam surgir em sua base mais radical.

FRASES E GAFES DE WEINTRAUB

"Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas."

Publicação irônica sobre a China no Twitter — Insinuou que o país asiático sairia "fortalecido" da crise causada pela Covid-19. Uma imagem da Turma da Mônica na Muralha da China acompanhou a postagem. Por isso, responde a inquérito por crime de racismo.

"Desespero na UNE! Fim da mamata! Mas, tenham compaixão. Enviem sugestões para a UNE sair dessa (comuna adora grana/vida fácil).”

Postou no Twitter que a operação da Polícia Federal que cumpriu 29 mandados de busca e apreensão no inquérito das fake news seria lembrado como a "Noite dos Cristais", quando estabelecimentos e casas de judeus foram invadidos por nazistas. Isso levou Embaixada de Israel no Brasil a pedir para que "a questão do Holocausto fique à margem da política e ideologias".

"No passado o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?" Por isso, Weintraub foi advertido pela Comissão de Ética da Presidência.

Ao se referir ao escritor Franz Kafka, durante participação na Comissão de Educação do Senado, cometeu a gafe, chamando-o de "kafta", prato árabe. Já escreveu por duas vezes paralisação com "z" e "imprecionante" em vez de "impressionante".

"A França é uma nação de extremos. Gerou homens como Descartes ou Pasteur, porém também os voluntários da Waffen SS Charlemagne. País de iluministas e de comunistas. O Macron não está à altura deste embate. É apenas um calhorda oportunista buscando apoio do lobby agrícola francês. Ferro nesse Macron, não no povo francês", postou, referindo-se ao presidente da França.

Elogiou a Monarquia e questionou as comemorações da Proclamação da República. Também chamou o marechal Deodoro da Fonseca de 'traidor' ao comparar o oficial ao petista Luiz Inácio Lula da Silva, condenado pela Lava Jato.

"Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”, disse na reunião ministerial e repetiu domingo. Foi a gota d'água para sua demissão.

Antes de sair, revoga portaria de cotas em pós-graduação

Como última medida antes de anunciar sua saída do governo, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, revogou uma portaria que permitia cotas para negros, ndígenas e pessoas com deficiência em cursos de pós graduação de instituições federais de ensino. Mas os parlamentares já se movimentam para anular a decisão. E o Ministério Público Federal (MPF) instaurou inquérito para apurar a decisão. A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC/RJ) afirma que a portaria do ex-ministro não apresenta os motivos para a suspensão de ato normativo.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que pretende resolver por meio do diálogo a revogação de cotas em pós-graduação. Parlamentares também afirmaram que tentarão tornar sem efeito a medida de Weintraub. Ao menos dois projetos foram protocolados ontem, um na Câmara e outro no Senado, para tornar sem efeito a revogação da portaria.

"Vamos conversar com o novo ministro, dialogar com ministro da articulação política para ver se podemos resolver isso no diálogo, sem necessidade de aprovação de um projeto de decreto legislativo. O ideal é mostrar para o governo que essa decisão do ministro, já sabendo que ia sair, talvez tenha baixa legitimidade", disse Maia.

A portaria revogada era de maio de 2016, assinada pelo ex-ministro da Educação Aloizio Mercadante, ainda na gestão de Dilma Rousseff (PT). O texto determinava a criação de comissões nas universidades para discutir ações afirmativas. Segundo dados de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), negros eram 28,9% dos pós-graduandos, apesar de representarem 52,9% da população à época.

Não há obrigação de reserva de vagas em pós-graduações, mas as unidades de ensino têm autonomia para criar regras próprias. A Universidade de Brasília (Unb), por exemplo aprovou em 5 de junho resolução para destinar 20% das vagas de cada edital de seleção para candidatos negros. Para indígenas e quilombolas, seria criada ao menos uma vaga adicional nas seleções. Hoje, 16 dos 96 programas de pós-graduação da Unb aplicam algum tipo de ação afirmativa.

A presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, chamou a medida de Weintraub de "destruição". "Sai com mais destruição. Infelizmente, não surpreende. Esse grupo que está no comando do MEC não terá o perdão da história", escreveu ela no Twitter.

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