Publicado 18 de Junho de 2020 - 19h05

Manhãzinha: água fresca e, para um despertar audacioso, acrescenta-se limão, que é vertiginoso e alegre, embora possa provocar espasmos e arrepios. Limão - o sumo, o suco e a casca – é vivaz e luminoso, assim como as Danças Húngaras de Brahms ou as Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos. Tão indicado quanto estes é Tom Jobim, grande e valoroso, poderá conduzir a sonhos densos, mesmo que estejamos parcialmente despertos. Jobim, como o limão, é cheio de luz e vigor, sendo menos agudo nos arroubos.

Manhã: nove coisas - cafeteira italiana, tigela pequena, garfo grande, outro pequeno, tesoura de cinco lâminas, frigideira, prato pequeno, colher, xícara. Para estas, outras nove coisas: dois ovos caipiras, sal, pimenta, creme de leite fresco, cebolinha verde, manteiga, óleo de oliva, água mineral e pó de café. A esperança, muito comum nas manhãs, virá de fato depois de um bom café (chá, chimarrão...). Aqui, é acompanhado de uma omelete à moda francesa. A esperança também pode ser vivida na música de Egberto Gismonti (Loro, Palhaço, Maracatu...), na poesia de Cora Coralina (Saber Viver, Aninha e Suas Pedras...), no pão com manteiga ou em algum dos Concertos de Brandenburgo de Bach.

Meio do dia: para as securas, chamar o alecrim, que traz a vida a qualquer míngua, assim como a alfazema e assim como Ray Charles ou Elis Regina. Chamar o coentro que chama o feijão, o peixe e o pirão. Chamar o samba, Cartola, Ney e Clara. Se estiver seco de quase rachar, o remédio é O Cisne, de Camille Saint-Saëns, de preferência com Yo-Yo Ma, o que pode trazer, por outro lado, a possibilidade de alagamentos. Para os alagados e afogados, chamar o cominho, que se aprofunda insolente e chama a lentilha, as abóboras e as carnes. Enfim, seco ou úmido demais, o equilíbrio pode estar em Adélia Prado, Mia Couto, Chico, Zizi ou Inezita. E se a necessidade for de presença sutil, colocar noz-moscada. E Paulo Leminski.

Meio da tarde: sol. É a hora em que tudo pode acontecer, portanto é bom estar preparado, tendo à mão um pote de mel. O mel sempre alegra quando chega massageando o paladar e, como um veludo, varre os incômodos, mas pode também, de tanta doçura, incomodar. Sob o sol, mirar a flor, a folha, o pássaro, cachorro, galinha ou cabras. Ouvir um choro, um frevo, um prelúdio. Chorar. Tangerina gelada, iogurte com mamão doce. Rir e cantar feito criança, valendo-se do repertório da Palavra Cantada. Rir para sempre com Peter Sellers ou Jerry Lewis. Render-se a Adoniran Barbosa, surpreender-se com a palavra renovada e entoada por Luiz Tatit. Grito do pavão, rap, canção romântica, Vanessa da Mata, o fascínio de João Bosco e a perfeição em Luciano Pavarotti ou Ella Fitzgerald. O soberbo canto de Teresa Stratas, quando encontra a canção de Kurt Weill.

Fim do dia: gengibre, cardamomo, canjica, leite de coco e, sobretudo, respirações alongadas, preparando para o embarque. Três possíveis destinos levam a vozes femininas marcadas por suas histórias, drama, beleza e singularidade. Primeiro: França - Edith Piaf, suprema, potente e profunda, embora o sofrimento não seja indicado a qualquer momento da vida, por isso há aqui uma rota alternativa, com a cantora Zaz, vigorosa e despojada, de certa forma uma Piaf mais livre e divertida. Nas primeiras produções, sua voz se destaca junto a um violão rítmico e um contrabaixo acústico, mesclando jazz cigano, pop e canção francesa. Segundo: Argentina - “a voz dos sem voz”, a voz que abraça, acaricia e recobre toda a América com o seu timbre e seu porte de rainha – a minha rainha, Mercedes Sosa. Terceiro e último destino: Carolina do Norte, Estados Unidos - Nina Simone. Intrigante, é indicada aos mais aventureiros. Quando se lê ou se escuta o seu nome pela primeira vez, a sonoridade macia e amorosa pode enganar facilmente a quem ainda não viu a mulher que impressiona e intimida apenas pelo olhar. No fundo dele, pode-se ver a dor, a opressão, a raiva, a força e a resignação. Dos lábios grossos, dentes enormes e pausas perturbadoras, brota uma voz que é ao mesmo tempo pedra bruta e joia lapidada. O canto forte e sustentado de repente murmura, fala, arranha, ri ou silencia, e tudo isso faz sentido na emoção que coloca em cada som. A presença intensa e seu canto ousado e displicente está, entretanto, sobre uma postura ereta da notável pianista que é. O pescoço alongado, os ombros invariavelmente relaxados. E os olhos que, entregues que estão, ao brado e à canção, quase nunca se voltam às teclas do piano e ao toque preciso e elegante dos seus dedos. A voz da defesa dos direitos dos negros e a refinada pianista são a mesma artista - Nina.

Noite: como a redenção virá depois, e a crise pede atitudes incríveis, uma visita a Hilda Hilst é bem vinda, antes ou durante o vinho tinto. Vinho, Hilda, Zeca, Wisnik... Pão, queijo, azeitonas. Salame, anchovas, tomate e óleo de oliva. Amália, Carminho, Montserrat, Domenico, Endrigo. As receitas seguem sinuosas e permeáveis, até à hora sublime, com Fauré ou Debussy, ou à hora da paz, com camomila e preces desenhadas em aquarelas. Para o sono, 4’33 de John Cage - quantas vezes forem necessárias. Bons sonhos.