Publicado 19 de Junho de 2020 - 5h30

É um atavismo do ser humano apegar-se a símbolos. Eles identificam uma orientação e indicam pertencimento. Os distintivos ou bottons utilizados na lapela exibem o que restou das armaduras e escudos, com os brasões de armas do respectivo exército. A política brasileira foi pródiga em fornecer símbolos que motivavam não só os eleitores, mas também as crianças. A História registra episódios bem interessantes vinculados a esse costume. Numa reunião realizada em 18.04.1873, com fazendeiros assustados ante a perspectiva da Lei do Ventre Livre unidos a integrantes do Clube Radical - dentre eles Francisco Glycério, Américo Brasiliense e Luis Gama - criou-se o Partido Republicano Paulista, o famoso PRP. Com o passar dos anos, em 1887 o PRP era abolicionista, por empenho de Bernardino de Campos.

Washington Luis dizia que os perrepistas eram como tatus: entravam em qualquer buraco. Foi o que bastou para que eles criassem o seu símbolo: um tatuzinho. Ele passou a ornar lapelas de hierarcas paulistas da província pré-industrial. Mas o jequitibá também foi usado como expressão da força e poderio do PRP durante uma época. Em 1933 São Paulo viu surgir outro partido, com os mais expressivos fazendeiros. Chamou-se Partido da Lavoura e seu símbolo era um arado e um ramo de café. O Partido Constitucionalista, resultado da Revolução Democrática de 1932, usou a tocha, como se fora aquela que os atletas olímpicos da Grécia clássica levavam em sua corrida. A toga foi outro símbolo que serviu a designar o Partido Democrático, obra do Conselheiro Antonio Prado, criado em 1926. O que significava a toga? A respeitabilidade, a clareza nas ideias, a objetividade e a correção.

Quando o Brigadeiro Eduardo Gomes fez referência aos “marmiteiros” do PTB, cujo voto a UDN dispensava, o Partido Trabalhista Brasileiro serviu-se da deixa e a marmita passou a ser o símbolo do trabalhador. As minúsculas marmitas passaram a enfeitar os macacões dos trabalhadores e os ternos dos militantes. O PTB também recorreu a uma bigorna com um ramo de café. Quem não sabe que foice e martelo identificam o Partido Comunista? No Brasil, ele foi fundado em 26.03.1925, em Niterói. O escritor paulista Plínio Salgado criou o Partido Integralista, os camisas-verdes, que se saudavam com o “anauê” e que tiveram grande prestígio, servindo até aos objetivos de Getúlio Vargas. O símbolo dos integralistas era o sigma, sinal matemático representado por uma letra “e” invertida. A intenção dos socialistas era congregar, com os mesmos objetivos de empolgar democraticamente o poder, trabalhadores e intelectuais. Era a ideia do fundador do PSB-Partido Socialista Brasileiro, fundado em 1933 pelo General Valdomiro Lima. Seu símbolo era um arado cruzado com a pena do escritor.

A imagem dos políticos também se converteu em símbolo. Vargas inundou a Nação de retratos encimados pelo slogan “Ele voltará”. Plínio Salgado fez imprimir sobre sua face reproduzida aos milhões, a frase “Graças a Deus, já temos em quem votar”. Após o suicídio de Getúlio, seus seguidores introduziram a gota vermelha, a significa o seu sangue derramado pela Pátria. O maior adversário de Getúlio, Carlos Lacerda, mostrava uma lanterna como o sinal de que a luz detectaria os erros ocultos na penumbra do ditador. Mas o marketing de Jânio Quadros foi imbatível. A vassoura foi música - “varre, varre, vassourinha...”, com a ideia de que toda a sujeira acumulada na República seria varrida para fora do governo. Um dia ele usou um capacete de bombeiro, para dizer que iria apagar o incêndio. Junto com um pintinho, a vassoura serviu para a eleição de Carvalho Pinto.Para competir, Ademar de Barros lançou o galo. A dupla Cunha Bueno e Prestes Maia recorreu ao chapéu de palha, para mostrar que em seu governo os pobres teriam vez. Prestes Maia também usou o salva-vidas, Auro Moura Andrade entendeu que a peneira era emblemática. Pedroso Horta e José Bonifácio preferiram a chave. Collor de Mello se elegeu prometendo caçar marajás.

E hoje, qual seria o símbolo da política brasileira? O PSDB elegeu o tucano, que os opositores exploram para dizer que ele não se define: está sempre em cima do muro. Mas com esta República tão atingida por todas as crises possíveis, se houvesse uma enquete, os símbolos talvez fossem hoje o fuzil, a caveira, o fogo que acaba com a Amazônia e outros verdes. Ou, por que não, um singelo ponto de interrogação: como será o Brasil de agora em diante?