Publicado 18 de Junho de 2020 - 5h30

A mandioca da roça está na panela. O fogão é um legítimo Dako, quatro bocas e um forno de assar pequenos bolos. Tem mais de cinquenta anos e já está meia boca. Assim como eu, como as minhas esperanças políticas. Mas ainda servimos para fazer algumas coisas de palavras e massas de broinha; ou coisinhas de assar amendoim, pão de queijo e outros quitutes que a companheira tem em seu herdado livro de receitas.

Estou longe das notícias. Os jornais televisivos são o mais do mesmo. Lula da Silva está quieto em seu isolamento social e político. O Bolsulini deve estar aprontando alguma coisa. Minha mãe dizia que criança quieta é sinal que está aprontando alguma coisa — ou já aprontou. Mas o céu da Mantiqueira está muito bonito pra gente perder tempo com preocupações idiotas e fico observando a família de quatro tucanos que descansam nos últimos galhos altos do velho e experiente cajazeiro.

Continuo sem internet. E aguardei mais de vinte minutos para falar com a Vivo. Uma voz de computador me disse que por conta da pandemia o atendimento poderia demorar. Não sei o que a pandemia tem a ver com um atendimento virtual, mas a paciência é minha e ninguém tasca. E a espera deu em nada. Assim como em nada está dando o governo do Bolsulini: muita conversa fiada e nenhuma gestão efetiva.

Em cima de um guarda-roupa achei dois jornais de 21 de fevereiro do corrente ano: Correio Popular e Folha de São Paulo. Nenhuma notícia sobre a pandemia. A notícia mais importante era sobre o Carnaval. E Bolsonaro cobrava do ministro Paulo Guedes um crescimento do PIB de 2% no ano. Deu tudo errado: Bolsonaro não combinou nada com a pandemia — que já se alastrava pela China — e o projeto econômico brasileiro está crescendo como rabo de cachorro: pra baixo. E as mortes pela pandemia crescem assustadoramente, proporcionalmente à incompetência do senhor Bolsonaro.

O raro leitor que me desculpe, mas achei uma notícia sobre o coronavírus naquele jornal da Folha em 21 de fevereiro, escrito por Tatiana Prazeres, sênior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, e ex-secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). O artigo é sobre a pós-crise do coronavírus e deixa claro que a China já vinha fazendo o possível para avisar os gestores do planeta a respeito da pandemia. Vou guardar o artigo como um documento do descaso da maioria dos políticos mundiais — alguns poucos, aliás, que agora pedem desculpas pelas suas fraquezas intelectuais por subestimarem alertas de centenas cientistas. E todos pensavam naquilo: na reeleição de suas tristes cadeiras presidenciais.

Ninguém prestou atenção no alerta de Tatiana Prazeres. Eu mesmo não me lembro de ter lido seu histórico artigo - e do alerta para que governantes começassem a pensar em um projeto econômico para quando a pandemia fosse controlada. E agora estamos isolados em nossos lares e buscando um jeito de suportar a solidão social. E os pobres estão morrendo às pencas, sem leitos, médicos e respiradores. E os que mais necessitam estão sem ajuda emergencial, milhões deles, desempregados e contando apenas com a força das orações papais.

Recorto o artigo da Tatiana Prazeres e vou usar o resto do jornal para fazer capucheta e balão-galinha. Serão cartas endereçadas às nuvens que cobrem, às vezes, a cumeeira da Serra da Mantiqueira. E assim vou encerrando esta prosa de quarentena, entristecido pelos nossos políticos e indignado com o presidente Jair Messias Bolsonaro que para a vida do povo que governa não demonstra nenhum afeto de companheirismo e muito mesmo social. Lastimável. É isso.

Bom dia.