Publicado 21 de Junho de 2020 - 12h32

Por AFP

Quando Jacqueline Shahada participou em uma manifestação a favor do retorno dos refugiados palestinos a suas terras, não imaginou que poderia perder a visão. E menos ainda que seria abandonada pelo marido e perderia a guarda dos filhos.

Em 9 novembro de 2018, como acontecia a cada sexta-feira há vários meses, milhares de palestinos se reuniram ao longo da barreira de segurança que separa a Faixa de Gaza e Israel, para mais uma manifestação da "Marcha do Retorno".

A situação se repete a cada sexta-feira: pneus queimados, pedras, granadas e bombas incendiárias lançadas em direção aos soldados israelenses do outro lado, que respondem com balas de borracha ou munição real.

Jacqueline, de 30 anos, com o véu apertado, pensava que as manifestações também eram destinadas às mulheres. E seguiu para as proximidades da barreira, para gritar "Palestina".

"Mas, de repente, senti algo que queimava meus olhos e perdi a consciência". Era uma bala de borracha.

Ela foi levada para o hospital, onde foi confirmado que havia perdido a visão do olho esquerdo.

Mas em um território governado pelo movimento Hamas, assolado pelo desemprego endêmico, Jacqueline não foi recebida com honras.

"Pensava que minha família e meu marido ficariam orgulhosos de mim, mas não. Paguei um preço elevado. Meu marido pediu o divórcio e perdi (a guarda dos) meus filhos", relata.

"Tudo isso me afetou realmente. Preferia ter sido morta, seria mais fácil", afirma Jacqueline, formada em Matemática.

Nas últimas semanas, a AFP entrevistou mais de 10 palestinos que perderam um olho por disparos israelenses, durante ou à margem de manifestações em Gaza, Jerusalém e na Cisjordânia ocupada.

Alguns reconhecem que atiraram pedras contra as forças israelenses, outros afirmam que apenas participaram ou se aproximaram de um protesto. Às vezes longe dos confrontos.

Sobre a barreira de cimento que cerca Gaza, o exército israelense posiciona franco-atiradores de elite que, de acordo com as ordens, abrem fogo quando os manifestantes intensificam as pedradas.

Questionado sobre os ferimentos de Jacqueline e o uso ocasional de balas reais, o exército israelense cita um "desafio de segurança" e afirma que toma "todas as medidas possíveis para reduzir os ferimentos nos habitantes de Gaza que participam nos distúrbios violentos".

"Há fumaça, pneus em chamas, o gás e a multidão em movimento. Os franco-atiradores estão distantes, é difícil", destacou um comandante militar.

Mais de 8.000 palestinos foram feridos, por balas reais ou de borracha, em Gaza em quase dois anos de "Marcha do Retorno", de março de 2018 até o início de 2020.

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