Publicado 19 de Junho de 2020 - 15h32

Por AFP

Para muitos em Tulsa, cenário de um dos piores massacres raciais nos Estados Unido em 1921, a escolha da cidade pelo presidente Donald Trump para seu primeiro comício desde o início da pandemia reabre uma ferida "sempre dolorosa".

O presidente conservador, muitas vezes acusado por seus críticos de difundir mensagens racistas enquanto defende a América tradicional, originalmente havia planejado sediar seu evento em Tulsa, em 19 de junho, no "Juneteenth", dia em que se celebra o fim da escravidão.

Diante das reações indignadas, principalmente dos parlamentares negros, Trump anunciou no Twitter que adiaria o ato até o dia seguinte, "por respeito" à data simbólica.

Mas o remédio permanece amargo, especialmente depois dos protestos em massa para denunciar a morte de George Floyd nas mãos de um policial branco, um símbolo de discriminação e brutalidade policial contra minorias.

"Uma grande maioria, se não todas as pessoas, sentiu a chegada de Trump como um tapa na cara e um desrespeito", disse o reverendo Mareo Johnson, líder do movimento Black Lives Matter em Tulsa, à AFP.

Johnson vai participar no sábado de uma manifestação em frente ao comício de Trump.

"Negros, mas também brancos, latinos, indígenas ... muitas pessoas diferentes veem Trump como um representante do ódio e do racismo, na medida em que ele não os repreende", enfatizou.

O magnata republicano, que costuma ser conhecido por seu fraco conhecimento em geografia e história, pode não estar ciente da importância do "Juneteenth" e da existência do massacre de Tulsa em 1921, desconhecido por muitos de seus concidadãos.

"Talvez ele não soubesse ... Mas, neste caso, adiar o ato para o dia seguinte ainda parece um tapa na cara!", respondeu Johnson, de 47 anos, que disse ter sido vítima de brutalidade policial em sua juventude em várias ocasiões.

O massacre racial de 1921, que deixou cerca de 300 mortos e devastou o distrito negro de Greenwood, "ainda é muito sensível, muito doloroso", disse Michelle Brown, diretora de programas educacionais do Greenwood Cultural Center.

"Como comunidade, ainda estamos muito indignados e comovidos com o fato de que algo assim tenha acontecido" com toda a impunidade e sem que nenhuma das famílias que perdeu tudo no incêndio de 1.200 casas tenha recebido qualquer indenização, disse ela.

Tulsa é segregada até hoje em sua geografia: ao norte, os bairros negros, e ao sul, a população branca. Cerca de 15% dos 400.000 residentes são negros.

"Ainda temos dificuldade em falar sobre essa história na cidade. Foi apenas no ano passado que o estado de Oklahoma resolveu tornar obrigatório o ensino desse episódio nas escolas", disse Brown.

"Mas há muitas pessoas que não conhecem essa história em Tulsa. É vergonhoso para elas: estão em negação. Não podemos esquecer o que aconteceu, faz parte de nós", enfatizou.

Para ela, a chegada do presidente Trump no sábado é "uma má ideia" no contexto atual.

As coisas, no entanto, estão melhorando lentamente.

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