Publicado 19 de Junho de 2020 - 9h23

Por AFP

Influentes ou anônimos, os curados da COVID-19 na África travam outra luta contra a negação da doença, a estigmatização dos doentes, a ignorância e a falta de meios.

Este é particularmente o caso em Kinshasa, onde os moradores desafiam as equipes de prevenção ao grito de "corona eza te!" (não há coroa, na língua lingala).

"Sou uma experiência viva: a doença existe. E pedirei às pessoas que ainda têm dúvidas que se cuidem bem, porque posso confirmar que sofri muito", diz o cartunista Thembo Kash.

"Acho que (o coronavírus) deve ser levado a sério, respeitar as medidas de barreira e seguir rigorosamente os conselhos das autoridades de saúde", diz o cartunista, que, em "tempos normais", dedica-se a estigmatizar as inconsistências dessas mesmas autoridades em imagens satíricas.

"Como muitos, eu era cética. Como muitos, pensei que essa doença ficaria na China. E, no entanto, fui vítima dessa doença mortal", diz em vídeo a ministra da Economia, Acacia Bandubola, curada, mas que perdeu dois parentes para a COVID-19.

Os sobreviventes têm "o dever e a missão" de sensibilizar a população, considera ela, acrescentando: "Não vamos estigmatizar os doentes, vamos ter compaixão por aqueles que precisam de ajuda".

"Há estigmatização", confirma outro curado, o jornalista Dieunit Kanyinda.

"Meus filhos no bairro foram apelidados de COVID. Passaram a ser chamados de corona. Esse é um comportamento que os leva a se esconderem", acrescenta.

No Senegal, o humorista Samba Sine, conhecido como "Kutia", espera dedicar "cerca de 15 programas" à conscientização, quando voltar à televisão - o que deve acontecer em dois meses.

Diagnosticado no início de maio, ele teve, pela primeira vez em dez anos, de interromper seu programa satírico diário no canal privado TFM, no qual zomba de Donald Trump pintando o rosto de branco.

O humorista de 49 anos passou 20 dias em terapia intensiva, sob risco de morte: "Havia cinco pessoas, e todos os dias anunciavam a morte de alguém. No último dia, olhei para a direita, e não havia mais ninguém. À esquerda, ninguém. Só eu. Eu estava com medo".

Protegido por sua fama, não foi discriminado ("as pessoas rezam pela minha boa recuperação"). Mas "as pessoas saíam correndo" de certos membros de sua equipe que também estavam contaminados.

"Você não deve fugir das pessoas, porque, mais cedo ou mais tarde, retornaremos à sociedade, e estaremos juntos", diz ele, denunciando o "racismo médico".

Na África do Sul, o país africano mais afetado pela doença (mais de 76.000 casos), experiências são compartilhadas.

"Quatro de nós tivemos a doença no trabalho", diz Christine, analista de 28 anos que faz parte dos primeiros 250 casos, com seu marido Dawie, de 30.

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