Publicado 17 de Junho de 2020 - 17h15

Por AFP

Um dos mais emblemáticos defensores da Amazônia, o líder indígena Paulo Paiakan, morreu em decorrência do novo coronavírus, segundo informações de ativistas divulgadas nesta quarta-feira (17).

O cacique Paiakan, que ganhou fama mundial por liderar a luta contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte na década de 1980, morreu na terça-feira em um hospital na cidade de Redenção, no norte do Pará, de acordo com Gert-Peter Bruch, fundador da ONG Planeta Amazônia.

Paiakan "trabalhou a vida inteira para construir alianças em todo o mundo com o objetivo de salvar a Amazônia", disse Bruch à AFP.

"Ele estava muito à frente do seu tempo. Perdemos um guia muito valioso", acrescentou.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) manifestou-se sobre a perda.

"Seu legado deixa na história e na vida dos povos uma construção de muita força", afirmou em comunicado a entidade.

Paiakan, que tinha cerca de 65 anos, era um cacique do povo Kaiapo, do norte do Brasil.

Ele foi responsável por alianças com outros povos indígenas, ativistas internacionais e até mesmo celebridades, como o cantor Sting.

Ele foi um dos organizadores do Encontro de Altamira, que reuniu aqueles que eram contra a construção do complexo hidrelétrico. O movimento ajudou a convencer o Banco Mundial a retirar recursos para Belo Monte, embora o projeto tenha sido retomado em 2011.

A imagem do cacique se tornou conhecida em 1992, quando foi acusado por uma estudante, junto a sua esposa, de estupro e abuso. O caso repercutiu mundialmente, no momento em que o Brasil organizava a Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, a ECO-92.

Em 1994, ele foi absolvido, mas após recurso do Ministério Público, o caso voltou a julgamento, sendo ele condenado a seis anos de prisão domiciliar em 1998.

Nos últimos anos, Paiakan continuou ativo em sua luta de proteção à Amazônia, e expressava sua preocupação sobre a opinião do presidente Jair Bolsonaro, que defende a mineração e a exploração agrícola em terras protegidas.

Em 8 de junho, Paiakan foi diagnosticado com a COVID-19, depois de visitar sua cidade natal, A-ukre, contou Bruch.

Segundo balanço da Apib, o novo coronavírus já afetou 103 povos indígenas no Brasil, que juntos registram 5.484 contaminados e 287 mortos.

"Paiakan se foi como as centenas de vidas indígenas que estamos perdendo para pandemia da Covid-19. É com tristeza e revolta que acompanhamos a perda de tantas vidas. Nossos anciões são sagrados e fonte de sabedoria dos povos indígenas", alertou a Apib.

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