Publicado 17 de Junho de 2020 - 12h06

Por AFP

O presidente Jair Bolsonaro e o alto escalão de seu governo nunca evocaram tanto a ameaça de um golpe de Estado no Brasil quanto nos últimos dias, uma hipótese pouco provável, avaliam analistas. Por enquanto.

O maior país da América Latina é governado de forma belicosa por um presidente cercado, assim como seu entorno, por uma série de investigações, um ano e meio depois de chegar ao poder.

A atual crise institucional, reforçada pela gravíssima crise sanitária do novo coronavírus e pela ameaça de uma recessão histórica, agrava o clima de instabilidade do Brasil, onde o governo deste nostálgico da ditadura (1964-85) tem dez militares em 23 ministérios e 3.000 na alta administração.

"Nós, militares das Forças Armadas (...) somos os verdadeiros responsáveis pela democracia no nosso país. Nós jamais cumpriríamos ordens absurdas", afirmou Bolsonaro em entrevista na segunda-feira à emissora Band.

"Mas também jamais aceitaríamos um julgamento político para destruir um presidente democraticamente eleito", completou.

O capitão do Exército, ex-paraquedista, é ameaçado ao mesmo tempo por um processo de impeachment (para o qual há cerca de 30 pedidos no Congresso) e pela anulação de sua eleição por irregularidades em sua campanha.

Seus filhos, o senador Flávio, o deputado federal Eduardo e o vereador (Rio de Janeiro) Carlos, são alvo de investigações por corrupção e difusão de notícias falsas.

Estes diversos procedimentos emanam do Congresso, do Ministério Público, da Polícia Federal, do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal (STF).

É com este último que Jair Bolsonaro trava uma queda de braço, com o apoio dos militares. E ao interpretar à sua maneira o artigo 142 da Constituição Federal que lhe permitiria convocar as Forças Armadas.

No último fim de semana, manifestantes bolsonaristas ameaçaram, em Brasília, "transformar em pano de chão" as togas dos juízes do Supremo. "Esses vagabundos", que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, quer "mandar para a prisão".

Vindas dos generais do governo, as ameaças são apenas mais veladas.

Na sexta-feira passada, o general da ativa Luiz Eduardo Ramos, chefe da Secretaria do governo, considerou "ultrajante" dizer que "o Exército vai dar um golpe de Estado", mas advertiu "o outro lado" (com o STF à frente): "não estica a corda".

Anteriormente, o general da reserva Augusto Heleno, figura-chave do governo no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), fez tremer o país ao evocar as "consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional", se o celular de Bolsonaro fosse apreendido no contexto de uma investigação.

Mas, uma intervenção militar estaria na ordem do dia no Brasil? "Absolutamente não!", replica Nelson Düring, editor-chefe do site Defesanet. "Estamos muito longe disso", garante.

"As preocupações com uma ruptura democrática são muito exageradas", concordam os analistas da Eurasiagroup, que estimam os riscos "em menos de 5%".

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