Publicado 17 de Junho de 2020 - 10h46

Por AFP

O percussionista aborígene Andrew Gurruwiwi geralmente toca diante de 100 conhecidos no extremo norte da Austrália. O confinamento, paradoxalmente, permitiu-lhe alcançar um público de 120.000 pessoas de todo o planeta.

Seu grupo foi a revelação de uma série de concertos chamados "East Arnhem Live" e transmitidos na internet, em um momento no qual as comunidades indígenas aborígenes estavam ainda mais isoladas do resto do mundo devido à pandemia de coronavírus.

Os organizadores reconhecem que o entusiasmo online pelos seus concertos em Terra de Arnhem, uma vasta região do nordeste do estado do Território do Norte, superou todas as expectativas.

A cada semana, as sessões alcançam dezenas de milhares de pessoas que, de outra forma, nunca teriam ouvido falar da cultura local do povo Yolngu.

"É difícil entender como conquistamos tantas pessoas", reconheceu Nicholas O"Riley, da Rádio Yolngu.

"O sol brilha aqui na Espanha e a ameaça do vírus em meu bairro é quase zero", escreveu um internauta de uma "pequena cidade" há algumas semanas. "Essa música mudou o meu dia e aqui é só de manhã! Obrigado!".

Andrew Gurruwiwi, cuja obra é influenciada pelo reggae ou pelas músicas africanas, canta às vezes em inglês e na língua Yolngu, denunciando principalmente o sofrimento de seu povo a partir da colonização.

"Os balanda [os estrangeiros] não sabem até que ponto o povo Yolngu sofreu todos esses anos", afirmou. "Mas o mundo quer conhecer nossa história. Compartilhamos nossa história e nosso conhecimento do povo Yolngu da Terra de Arnhem".

A performance ao vivo destaca as imagens da costa e da natureza local gravadas com um drone, o que faz da "East Arnhem Live" uma ótima ferramenta promocional para esta região que ainda é pouco explorada pelo turismo.

Ryley Heap, do escritório de turismo local, espera que esses concertos incentivem os viajantes a conhecer este local remoto da Austrália.

"A região é pouco conhecida globalmente e, já que é pouco conhecida, está muito intacta. E é absolutamente espetacular", declarou.

Os aborígenes vivem na Austrália há mais de 40.000 anos, ou seja, muito antes da chegada dos colonos europeus em 1788. Mas agora são apenas 670.000 no país, de uma população de 23 milhões.

Os sucessivos governos australianos não foram capazes de compensar os padrões de vida desiguais entre os aborígenes e os outros australianos, uma realidade que o primeiro-ministro Scott Morrison chamou em fevereiro de "vergonha nacional".

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