Publicado 18 de Abril de 2020 - 11h44

Por Adriana Menezes

Flailda Brito Garboggini é professora da Faculdade de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas

Arquivo pessoal

Flailda Brito Garboggini é professora da Faculdade de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas

De repente, o espaço físico da sala de aula ficou distante e, no lugar do convívio e do olho no olho, uma parafernália tecnológica se impôs na relação entre professor e aluno. Em curto espaço de tempo, foi preciso estabelecer uma nova forma de se relacionar durante o período de isolamento, praticado em todo o País como medida de prevenção ao Covid-19. Com as aulas presenciais suspensas há cerca de um mês, escolas e universidades lançam mão dos recursos do ensino a distância, e os professores, diante deste cenário, se reinventam e se adaptam a outros métodos para transmissão de conteúdo, onde a interface se dá por meio de softwares, programas e equipamentos diversos.

A vida dos professores, portanto, foi radicalmente afetada pela pandemia declarada em 11 de março pela Organização Mundial de Saúde (OMS). E a de quem não foi? Se os estudantes e os seus pais, da noite para o dia colocaram a sala de aula dentro de casa, os professores também sentiram o impacto da mudança. “Tivemos de aprender na marra”, brinca a professora Flailda Brito Garboggini, da Faculdade de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica). Docente há 32 anos, Flailda fala que desde que iniciou sua carreira já se adaptou a inúmeras mudanças e novidades tecnológicas. “O professor tem de estar sempre aprendendo. Vi chegar a internet e novas tecnologias, foi um processo gradual. Mas agora foi tudo muito rápido, como uma enxurrada”, compara.

Com suporte da universidade e muita troca entre os colegas, Flailda diz que conseguiu, após as primeiras semanas, se adaptar à “nova sala de aula”. Ela utiliza o programa Teams, dentro da plataforma da PUC-Campinas. Há professores que adotam o aplicativo Zoom de videoconferência ou o aplicativo Hangouts meet, mas ela preferiu o que estava mais adaptado à universidade.

Vantagens e desvantagens

“Eu chamo os alunos para o começo da aula, posso gravar a aula, deixo aberto um chat e consigo compartilhar a tela. Então os alunos podem me ver numa janela menor, enquanto acompanham os slides. Está dando certo, já me adaptei e eu estou gostando. A desvantagem é a falta do contato físico. Isso é triste”, diz Flailda, que destaca a vantagem de poder acordar um pouquinho mais tarde. “Meus horários de aula são os mesmos, mas não preciso me deslocar e ganho tempo.”

A professora conta que teve sorte porque, sem saber do que estava por vir, havia comprado em janeiro um novo notebook, que lhe permite utilizar agora duas telas nas aulas. Os alunos que inicialmente tiveram dificuldades por falta de recursos tecnológicos, ela diz que conseguem assistir à aula até pelo aparelho celular. Para Flailda, aparentemente as aulas têm segurado até mais a atenção dos alunos. “Parece que estão mais concentrados.” Mas tem aqueles também que pensam estar em férias, diz a professora.

O momento da avaliação ainda não chegou, diz ela, mas por enquanto ela aplica atividades regulares. “Eles chegam a dizer que está mais difícil, com mais trabalhos, mas é uma forma de compensar esta falta de contato pessoal, que te permite ver melhor se entenderam.” Alguns alunos tiram dúvidas no chat ou por mensagem no WhatsApp. Por quanto tempo isso vai durar, ninguém sabe. Mas Flailda segue no isolamento e no trabalho à distância. “Saí de carro, outro dia, só para ver como estava a rua. Nem desci do carro. O trânsito está uma maravilha, minha rua está mais silenciosa. Isso ficou melhor.”

Pessoal e profissional

Para Sebastian Alvarado Fuentes, professor de Geografia de cursinhos pré-vestibulares há mais de dez anos, a distância física dos alunos o levou a liberar a redes sociais, como Instagram e Facebook, que antes eram particulares. “Agora viraram profissionais também, para que os alunos possam ter contato mais direto comigo, inclusive tirar dúvidas. Esse é um dos pontos de adaptação às mudanças.” Além de misturar o pessoal e o profissional, Sebastian diz que já não consegue definir o horário de trabalho. “Agora eu estou sempre dando aula ou tirando dúvida. O horário fica complicado.”

 

Apesar de já estar adaptado às interfaces tecnológicas, Sebastian sente muita falta das aulas presenciais. “A gente percebe ainda mais, agora, que o ensino a distância não se compara nunca ao presencial. Ele pode ser um complemento, mas nunca será um substituto. O contato olho no olho e a proximidade são muito importantes para a educação”, acredita o professor.

A suspensão das aulas não pegou os cursinhos de surpresa, diz Sebastian. Muitos começaram a se preparar antes das medidas de isolamento e gravaram aulas com os professores, nas próprias salas, onde usaram lousa, giz, slides e toda a estrutura, sem os alunos, para depois disponibilizar na internet. “Imaginavam que algo podia acontecer, só não sabiam que as coisas aconteceriam tão rápido.”

Lecionando em mais de um cursinho, em Campinas e em São Paulo, Sebastian diz que também teve casos de escolas que ficaram uma semana praticamente paradas, para só depois criar uma espécie de estúdio no qual os professores vão, uma vez por semana, dar aulas com transmissão ao vivo para os alunos, que assistem em casa. “Esse foi outro tipo de adaptação que tivemos de ter. Achei mais complicado, porque é ao vivo e você tem uma câmera na sua frente”, descreve o professor.

Saudade da sala

Sebastian também teve de se adaptar às tecnologias de aula on-line. “Sabíamos que existiam estas ferramentas de aulas à distância, mas a maioria não sabia mexer. No começo, demandou tempo para aprender as especificidades de cada programa e qual seria a melhor para passar o conteúdo ao aluno.” Ele comprou microfone e webcam para instalar em casa o necessário. “Nem todo professor pode investir nisso. Algumas instituições estão ajudando, mas há também os que estão com dificuldade nesse sentido”, lembra Sebastian, que também se surpreendeu com a colaboração mútua entre os professores, compartilhando tutoriais, informações sobre preços e instalações.

Nesse momento, ele diz, foi possível perceber o esforço da grande maioria dos professores em conseguir dar a aula, propriamente dita. “Não foi só pelo emprego. Estávamos preocupados em saber como lecionar, uma preocupação grande com os alunos. Há um calendário, inclusive, com data do Enem e dos vestibulares.”

O relacionamento indireto com os alunos e a falta da aula presencial fazem muita diferença na educação, acredita Sebastian, tanto na questão de conteúdo quanto na formação do cidadão. “Afinal, foi por isso que optamos por esta profissão: para educar.”

Lado positivo

Neste novo formato de aula, a professora de Química Juliana Roveri, que desde 2006 leciona no Ensino Médio, acha que “ainda dá para se sentir professor e fazer uma troca”. “Sinto saudade e muitos alunos falam que estão com saudades também, mas todos estão entendendo o momento, e entendendo o conteúdo. Tem sido positivo”, acredita a professora. “É claro que eu estava acostumada a olhar no olho do aluno e, pela reação, saber se estava entendendo, se estava bem ou não. Mas pelas plataformas que permitem o chat também consigo ver. Não é a mesma coisa, mas eles também podem me ver. Tem sido uma adaptação. Tudo é novidade.”

Juliana comprou uma mesa digitalizadora, que funciona como uma lousa, onde ela pode escrever. “É mais difícil, a sensibilidade é menor, mas eu consigo resolver exercícios. Em alguns meses, nós avançamos o que avançaríamos em alguns anos. Estamos tendo de estudar muito, demora um pouco mais, mas dá certo.” Para preparar as aulas, ela também gasta mais tempo. “Tem de abrir etapa por etapa, porque o que eu faria na lousa, mostrando aos poucos, preciso fazer nos slides. Dá muito trabalho.” Por outro lado, Juliana pode juntar duas turmas em um horário apenas de aula, “para compensar o tempo.”

Na hora da aula, ela prende as cachorras para não latirem, e ninguém na casa pode colocar música ou fazer barulho. “Nunca imaginei passar por algo assim. Não sabemos quando vai acabar. Estamos nos preparando semana a semana para continuar com qualidade no conteúdo e bem próximos aos alunos”, afirma Juliana.

Segundo uma das maiores e mais antigas entidades representativas da categoria na América Latina, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), com cerca de 180 mil associados, a prática do Ensino a Distância (EaD) deverá acentuar as desigualdades sociais e econômicas no País, especialmente nas escolas públicas. A questão preocupa a categoria devido ao grande número de alunos que não dispõem de recursos tecnológicos ou acesso à internet.

Na rede estadual de ensino, as aulas estão suspensas, oficialmente, até o dia 22 de abril, com possibilidade de prorrogação. Por enquanto não há atividade on-line em prática nas escolas públicas estaduais, e todos os professores e alunos foram orientados a cumprir o isolamento, aguardando novas informações.

A falta de infraestrutura nas escolas públicas estaduais é também outra questão levantada no site da Apeoesp, somada ao fato de não disporem de plataformas e professores com formação adequada para trabalhar com a modalidade. No entanto, a EaD é reconhecida como uma alternativa viável ao ensino se houver investimento e apoio às escolas. Para tanto, governos e prefeituras devem criar plataformas acessíveis pelo celular, tablet ou computador para que sejam transmitidos conteúdos em texto, imagens e vídeo-aulas.

Escrito por:

Adriana Menezes